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Despertar de um Adeus

Ela não dizia não, apenas sorria. Também não dizia nada, apenas ia embora. Era seu jeito de ser, achava ser o melhor jeito para agir. Nem todos entendiam, muitos corriam atrás. Poucos percebiam que aquele aceno era um adeus, e não um até mais.

De longe tão encantadora, mas nunca chegara perto demais. Talvez pelo medo que sentia, talvez pelo amor que não queria. Não fazia promessas, não deixava esperança, era uma noite e apenas. Às vezes semanas, às vezes meses, não tinha pressa e nem tempo para ir. Sabia apenas, qual era sempre, o momento certo para partir.

Se pudesse dizer, diria desculpe. Se pudesse contar, seriam seus medos. Se pudesse parar, livrar-se-ia de seus segredos. Se pudesse deixar, daria seus sentimentos. Mas não podia e morreria antes de confessar que queria. Era apenas tão complicada quanto seus medos, e tão instável quanto suas inseguranças.

Quase não se lembrava do começo, fazia tanto tempo. Agora era só mais uma parte de sua natureza. Chovia. Correu porta a fora e deitou perto das flores olhou para cima. Atrás do manto de d’água escondiam-se as estrelas que tanto gostava. Tentou lembrar-se de como era o céu, sem a chuva e a neblina, não conseguiu. Desenhou em sua mente como seriam as estrelas, suas estrelas, brilhando na sua noite, do jeito que sua imaginação criará. Noite clara o bastante para espantar seus medos, bela o suficiente para não querer acordar nunca.

“É tão fácil sonhar e viver esquecendo da realidade”. Racionalmente sabia que apenas estava apunhalando-se. Talvez de nada adiantasse suas certezas e definições. Quem sabe com quais ilusões agarra-se a realidade.

Levantou e observou as flores, ao seu lado o silêncio e a solidão brincavam entre os lírios. Leais companheiros, porém, exigentes e possessivos, com o tempo acostumara-se com ambos. Caiam as últimas gotas quando percebeu que o sol nascia dissipando o bruma e iluminando o orvalho. “É tudo uma grande ilusão da qual faço parte, e mesmo que não faça...” .

Um suspiro de coragem, um último olhar pelo jardim, uma primeira volta entre as flores. Não estava distante, não acena adeus, e pela primeira vez disse:

- Venha!

Não sei

Olhou para ele com uns olhos que não eram seus. Não eram porque não poderiam ser, não lhe pertenciam, não aquela tristeza profunda de uma alma ferida. Olhou muda, porque não poderia falar, como diria a alguém que amava profundamente que não poderia dividir seus segredos mais profundos com ele? Queria, mas não poderia, ele não tinha forças ou a estrutura para lidar com suas angustias, uma mente perturbada pelo sótão e pelo porão da sociedade.

Era e sempre fora uma alma conturbada, levada a extremos, habituada a inquietude. Não poderia nunca ser diferente, não que não quisesse, era um de seus maiores desejos ser diferente do que era. Mas não poderia, devido a natureza de seu ser. Em seu âmago estava a raiz do pensamento. Tão profunda, tão densa, quanto uma abscissa, não poderia e não seria facilmente retirável de si, sendo um pilar edificador de si mesma.

O pensamento que a levava a angustia, a tristeza, a dor física, era o mesmo que a fazia levitar e transcender, elevar-se, não aos céus que estão vazios, mas ao homem, que está cheio, que é real e presente. Nada e tudo estavam dentro dela, o horror e o maravilhoso, os dois lados. Como explicar a alguém? Como dizer, eu não sei? Pois era, acima de tudo, formada de incertezas, de questões, de confusões, de teorias. Não tinha respostas, nenhuma delas, não para si mesma, pois queria sempre atingir o verdadeiro, o imutável, o concreto e a certeza, embora soubesse que nenhuma dessas coisas poderia existir (na verdade não tinha certeza sobre isso também). Poderia dar aos outros mil respostas, e eles acreditariam, pois não tinham a sua alma desesperada que se agarra em incertezas para não padecer em loucura. Tinha respostas para aqueles que não eram permeados por dúvidas.

Para ela, alma fadada a pensar, não tinha nenhuma, nenhum conforto, nenhum alento, nada. Tinha fome de respostas, fome de saber, e nada com o que saciar suas necessidades. Há aquelas como ela,  mas eles estão longe do mundo, que não quer respostas e não se importa com elas, eles estão solitários em sua busca, uma alcatéia de pensadores errantes.

Ele a olhou mais uma vez, inquisidor, aproximou-se, tomou-lhe a mão com ternura e olhou-a demoradamente nos olhos, como se quisesse de alguma forma, entrar-lhe na alma e descobrir quais feridas abrasadoras atormentavam a mente da garota. Ela piedosa, sustentou o olhar, em um último pedido suplicante de ajuda, que nunca chegaria. Deixou que ele olhasse e procurasse, quem sabe acharia em uma ruga de suas pálpebras, em uma pintinha de sua Iris, a razão de seu tormento. Mas ele não conseguiu passar pela janela e mergulhar no poço, não entrou e não viu, não achou. Sua alma continuou lá, por trás de seus olhos grandes, angustiada, e ele continuou ali, na sua frente, sem resposta.

Ela por outro lado, encontrou várias, olhando nos olhos sinceramente preocupados do rapaz a sua frente, achou carinho, achou medo e incerteza, achou também ali no canto a alma dele. Era uma bela alma, simples, leve, como as notas soltas do violão que ele sempre levava consigo. Não menos complexa e única por isso, apenas, diferente e leve. Era renovador e refrescante tê-lo junto a si. Ela quase poderia esquecer os pensamentos sombrios que lhe rondavam a mente e corroíam a alma.

“Eu não entendo” – ele sussurrou, e ela riu, não riu dele, riu dela. Ela sorriu e acariciou-lhe o rosto enquanto uma única lagrima solitária lhe marcava a face. “Nem eu” – ela sussurrou de volta.

A estranheza da situação e a familiaridade do sentimento a faziam rir da ironia. O silencio, segredo dos íntimos, era tudo o que os aproximava naquele momento, a ponte que os mantinha juntos. Não saber era o que fazia permanecer ali, tão pertos, tão unos. Não saber era, também, o que os estava afastando e os mantendo longe, pois ela não sabia sozinha, e ele não tinha opinião formada a respeito, já que não se importava em pensar sobre. Realmente fazer algo juntos, era, na verdade, o que os unia.

No rádio a música deles começava a tocar, e a voz calma de George Harrison preencheu o vazio deixado pelo silencio. O momento deles juntos já havia passado, e o silencio já havia se desfeito, ele sorria ao olhar para ela, seus pensamentos soprados para longe do “não saber”, os dela não. Ele a trouxe para mais perto, como sempre acontecia quando essa música tocava. Ela não cedeu como geralmente acontecia quando aquela música tocava.

Não, depois de dois anos, depois de tanto tempo, depois de tudo. Era tão leve estar ao lado dele, tão bom, era comum, normal e natural. Mas seus demônios pediam sangue e sofrimento, e não há sofrimento maior que o de pensar. A calma que a habitava nos últimos dois anos não iria continuar, todo o progresso que havia conquistado, toda a melhora, a levava agora a um outro lugar, mais alto, mais difícil de ser alcançado. Não iria regredir, não era essa a questão, apenas havia percebido que o pico era mais alto, e ficar parada a inquietava, precisava subir mais alto, não precisa conseguir, mas se obrigava a tentar.

Outras lagrimas caíram, e o sorriso dele se desfez. Ela não disse, não diria, ela nunca dizia, e ele sabia, a conhecia bem, não profundamente, mas bem. Um último adeus dava forma em um último beijo, que não sela um final, mas um novo começo, uma outra história. A de hoje começa com um último beijo, um olhar de até logo, algumas lagrimas, um “não sei” perdido no ar, e uma porta se batendo. Ela termina, em algum dia, em alguma hora, por ai, perdida no tempo de si mesma, forjada nos moldes que construiu para si, imperfeita.

Amigos Perdidos

Enfiou a mão na mochila e vasculhou pelas chaves. Olhou para o chaveiro que tinha umas peças faltando e sentiu-se tão vazia quanto a peça incompleta. Era uma sensação estranha que começava na boca do estomago, e subia até alojar-se no alto da garganta, sem subir ou descer.

Apressou-se pelo curto caminho até a porta, a luz do poste mostrava sua respiração na noite. Entrou em casa e atirou a mochila, subiu diretamente para o quarto, pegou o livro sobre a bancada e jogou-se na cama. Bateram na porta, o quarto mantinha-se em silencio, bateram de novo, continuou sem dizer nada.

As letras a sua frente não tinham foco algum, dragavam-na para dentro, em espiral, em um furacão para dentro de si. Tudo rodava na sua mente, as imagens, as falas, não conseguia organizar-se. Os sentimentos voltaram a tona, não deixavam com que pensasse claramente ou sequer sentisse, estava novamente em um misto de fúria, tristeza e indignação.

“Era noite e o bar estava escuro, parcialmente iluminado por luzes que por vez ou outra brilhavam, sem realmente clarear algo. Tocava algo com uma batida forte, e ela mexia o corpo junto com a música. Ele se aproximou como sempre fazia, mas dessa vez sorria diferente. Continuou dançando, e ele se aproximou, ela foi andando para traz até encontrar a parede, fugiu para o único lugar possível, abaixou a cabeça. Ele insistiu, ele tapou a boca com a mão. Ele foi embora, ela voltou a dançar.
Horas depois, o lugar estava quase vazio, ele disse que precisavam conversar, ela concordou. Ele disse coisas que a magoaram, e no começo ela exibia apenas uma expressão de indignação, depois ao perceber que ele falava serio, começou a chorar. Ele continuou falando, e ela sem aceitar, sem entender, extravasou o que sentia em um tapa no meio do rosto dele. Virou as costas e andou em direção ao taxi que a esperava.”

Aquilo tinha sido o final. Não sabia se era o final de tudo, ou apenas o final de um capitulo ruim a espera de uma retomada algumas páginas a adiante, na verdade, não tinha como saber. Sentada na cama, os dedos esbranquiçados por apertar o livro, encarava ora as palavras, ora o teto. Não via nada realmente, tentava em sua mente, formar uma lógica, um sentido para o que havia acontecido.  A sua frente via apenas o passado em conjunto.

Jogou o livro e levantou-se, andou de um lado para o outro. A cada passo levava uma das mãos ao cabelo e baixava a outra. Parou e virou-se para a janela com sua cortina esvoaçante. O vento revirava seus cabelos. Apoiou as mãos no parapeito e pulou para o telhado onde deitou-se ao sol. Tirou do moletom velho um maço de cigarros amassado e um zippo gasto, em um gesto mecânico acendeu um e colocou-o na boca.
Gestos mecânicos e automáticos ajudavam-na a pensar, era como se todas as coisas banais fossem limpas de sua massa cinzenta e ela pudesse pensar no que era realmente importante. No momento era realmente importante descobrir como aquela amizade podia ser classificada como incompleta. Eram iguais, não idênticos, mas iguais. Desde o momento que se conheceram, eles haviam se sentido ligados de alguma forma. Ela gostou dele pelo jeito estranho de falar, ele se aproximou dela pelo corte de cabelo diferente. Eram uma dupla singular, mas que dava conformidade ao conjunto, de alguma forma.


Ele sempre dizia, em meio aos risos, “Você é o meu eu-feminino, e eu sou seu eu-masculino”. Eram realmente parecidos, não na aparência, ele era moreno e ela loira, ele tinha olhos negros e ela azuis, eram quase idênticos na maneira de pensar, de agir. Uma amizade que surgira do nada, mas que completava a ambos. Nas tardes passadas sob a proteção da sombra que a árvore fazia. Aquela era a árvore deles. Haviam marcado seus nomes na casca da árvore, era um pacto. Lembrava-se quando, numa tarde qualquer, ele havia pedido a mão dela em casamento. E ela negara-lhe. Devia ter sido ali que tudo começou, e continuou com as recusas freqüentes dela. Até que ele desistiu, deveria ter percebido que afastara-se muito dele depois daquilo. Não, ele afastara-se dela. Mesmo quando muito tempo depois, haviam combinado de casar quando aos trinta e cinco anos ainda estivessem solteiros, sozinhos e sem um grande amor, ainda assim, não estavam mais tão próximos.

Sem levantar-se atirou a bituca longe, acendeu outro. Dos olhos semicerrados escorreu uma lagrima.

despertar de um Adeus

Ela não dizia não, apenas sorria. Também não dizia nada, apenas ia embora. Era seu jeito de ser, achava ser o melhor jeito para agir. Nem todos entendiam, muitos corriam atrás. Poucos percebiam que aquele aceno era um adeus, e não um até mais.
De longe tão encantadora, mas nunca chegara perto demais. Talvez pelo medo que sentia, talvez pelo amor que não queria. Não fazia promessas, não deixava esperança, era uma noite e apenas. Às vezes semanas, às vezes meses, não tinha pressa e nem tempo para ir. Sabia apenas, qual era sempre, o momento certo para partir.
Se pudesse dizer, diria desculpe. Se pudesse contar, seriam seus medos. Se pudesse parar, livrar-se-ia de seus segredos. Se pudesse deixar, daria seus sentimentos. Mas não podia e morreria antes de confessar que queria. Era apenas tão complicada quanto seus medos, e tão instável quanto suas inseguranças.
Quase não se lembrava do começo, fazia tanto tempo. Agora era só mais uma parte de sua natureza. Chovia. Correu porta a fora e deitou perto das flores olhou para cima. Atrás do manto de d’água escondiam-se as estrelas que tanto gostava. Tentou lembrar-se de como era o céu, sem a chuva e a neblina, não conseguiu. Desenhou em sua mente como seriam as estrelas, suas estrelas, brilhando na sua noite, do jeito que sua imaginação criará. Noite clara o bastante para espantar seus medos, bela o suficiente para não querer acordar nunca.
“É tão fácil sonhar e viver esquecendo da realidade”. Racionalmente sabia que apenas estava apunhalando-se. Talvez de nada adiantasse suas certezas e definições. Quem sabe com quais ilusões agarra-se a realidade.
Levantou e observou as flores, ao seu lado o silêncio e a solidão brincavam entre os lírios. Leais companheiros, porém, exigentes e possessivos, com o tempo acostumara-se com ambos. Caiam as últimas gotas quando percebeu que o sol nascia dissipando o bruma e iluminando o orvalho. “É tudo uma grande ilusão da qual faço parte, e mesmo que não faça...” .
Um suspiro de coragem, um último olhar pelo jardim, uma primeira volta entre as flores. Não estava distante, não acena adeus, e pela primeira vez disse:
 - Venha!

Última

O bip do relógio alertou as horas. Continuei deitada, entre desperta e sonhando, enquanto ele levantou-se e recolheu suas roupas espalhadas pelo quarto, fazia isso em silêncio, soturnamente. Espreguicei-me na cama e observei- vestindo-se. Ele sorriu-me levemente envergonhado, ignorei suas reações, queria guardar bem aquele momento, pois seria o último.
Naquela noite mais cedo, ao ver seu nome no visor do meu celular percebi que aquilo teria que terminar. Nada estava saturado em nossa inconstante relação de noites, mas eu não podia mais sustentar aquela situação. Ele inclinou-se, e eu sabia que era para me beijar, normalmente eu não o aceitaria, mas aquela era a última vez. Seria uma despedida. Beijei-o, um beijo cálido, calmo, carinhoso. E, talvez, pela primeira vez ele olhou-me, realmente, nos olhos. Senti que naquele momento nós nos conhecemos, depois de tanto tempo. Colocou a mochila nas costas e saiu, dali a alguns minutos, ouvi o carro dando partida, pela última vez.
Esparramei-me novamente na cama, o perfume dele impregnado nos travesseiros, nosso cheiro pairando no ar. Levantei-me enrolada no lençol e abri a janela, a brisa matinal entrou fresca. Deitei-me na cama, o aroma não passando de uma leve lembrança. A luz morna e aconchegante do sol embalando em um sono calmo.
A presença dele agora mal aparecia na minha bagunça, a noite com ele, a última e todas as outras, eram apenas murmurios vagos, sonhos fracos e distantes. Adormeci em sonhos brancos, placidos, ladeada por um a parca ausência de uma presença que parecia ter estado ali.

Solidão

Estou sozinha. Não há nada a fazer sobre isso, a cada passo que dou mais sozinha eu fico. Eu não pertenço mais a lugar nenhum, não tenho um lar, não me sinto em casa, não há nada para retornar, não há onde retornar. Ao meu redor, a solidão física permeia o espaço embora eu não vá a lugar algum sem ninguém, estou sempre só.

Olho a minha volta, é frustrante perceber que estou só, enquanto todos estão rodeados e juntos. A solidão aumenta. Descobrir-se nada para o mundo é algo que causa ânsia. Estou constantemente nauseada e sinto que posso vomitar a todo instante, ou chorar, dá no mesmo. Noção de qualquer coisa que seja me escapa pelos dedos. Desaprendi a viver com pessoas porque estou vazia delas. Vejo-as o tempo todo, converso, ouço, toco, mas elas nada significam, são como luz ou vento no espaço, devem estar ali para compor o ambiente, nada mais. Qual a utilidade de qualquer uma delas em minha vida?
A indiferença preenche-me quando as vejo, ouço e sinto. Nada me causam, nada me acrescentam, continuo inutilmente igual a antes.
Sinto-me cada vez mais irrelevante ao mundo, cada vez mais inútil e desproposital. Penso e falo, olho e sinto, cheiro e ouço, sem que significado algum se faça para mim. O mundo gira, o mundo para, o mundo volta. As pessoas continuam as mesmas de sempre. Todas são as mesmas horríveis e mesquinhas de antes. Todas ainda sorriem quando me vêem passar. No fundo sei que é enrolação, posso sentir o ódio dirigido a mim, no ambiente, no meio das frases, entre os olhares. Lufadas de um ódio primitivo rondam o ambiente a minha procura. Não posso, contudo gritar-lhes para que parem, eles não o dizem.
Continuo caminhando, a cada passo mais sozinha, mais distante. É um caminho sem volta, de uma passagem só de ida, Passargada me espera ao final da linha de metro, de lá pego um trem direto até o castelo do rei, meu amigo.
A sensação de náusea não me deixa dormir, descansar, sonhar. O pensamento latejante grita-me que não presto, é insistente o bastante para manter-me sempre atenta e alerta. O cansaço vem, os dias sucedem-se, e no final nada mudou, nada nunca muda.
As pessoas ainda lutam para serem as melhores, sem se importar realmente com as outras. Todos sempre têm dentro de si um egoísmo negro e um narcisismo vermelho, que mascaram com sorrisos brancos em um mundo cor-de-rosa.
O mundo fede, as pessoas fedem, a tudo. Desde inveja inescrupulosa, ao exarcebado consumismo e o capitalismo, que não passam de desculpas para que as pessoas possam tomar o querem sem se sentirem culpadas.
Tudo ruí a nossa volta, e ninguém vê ou se importa, porque todos estão conseguindo o que querem, e os que não conseguem, mal tem força para erguer-se e dizer, e mesmo que dissessem, ninguém os entenderia ou pararia para ouvir.
O mundo é uma merda. E as pessoas são uma merda. A vida é uma merda. E ainda sim estou aqui viva, agarrada com todas as forças a uma vida que não me faz bem, a uma vida que apenas me mostra desespero e impotência.
Estou viva dentro de um mundo que temo em deixar. Temo o dia que não abrir os olhos para ver o céu cinza e as nuvens negras, o sol escaldante e as pessoas nojentas e ignorantes. Temo o dia que não poderei correr por dentre os carros fedorentos e barulhentos, entrar em uma sala mal conservada e olhar para as caras feias de pessoas desconhecidas.
Sou uma louca sem noção. Quando olho para mim, vejo que nada tenho, nada tive. A solidão que me acompanha, irá deixar-me, quem sabe, no dia de minha morte. Nasci sozinha em uma quarta-feira fria. Vivi sozinha em um mundo gelado. Escondi-me no escuro, e olhei a viva através da fechadura de uma janela.
Restam-me as letras deixadas, as entrelinhas lidas, o entendimentos dos livros, pois sou tão grande quanto as páginas dos livros que vivo, e tão real quanto as letras que escrevo.
Sou uma louca por viver.
Sou uma louca por continuar vivendo.
Sou uma louca por querer viver.
Sou uma louca.
Vivo.
Vivendo.
Só.

Meu eu

Se perguntarem por ae, diga apenas que sou uma garota que vive perdida nos trilhos, gosta de cores e notas, leva na mochila apenas um livro e uma música, deixou de ser a muito tempo alguem e busca saber quem.
Se perguntarem por ae, diga apenas que vivo, e que me viu passar, que não tenho hora pra voltar, só algo para acreditar e umas histórias para contar.
Se perguntarem por ae, diga apenas que faço jornalismo, que sonho em ver o mundo e aprendo a viver nas arestas dos amigos que levo comigo, num beco com saída pra noite.
Se perguntarem por ae, não grite os segredos, sussurre baixinho que me teve por perto, e que me viu partir sem saber pra onde, guiada apenas pela estrela polar.
Se perguntarem por ae, não tenho idade certa, acordo como uma velha, passo a tarde criança, pra crescer no almoço, viver a tarde adolescente e ir dormir alguma hora proxima da juventude, pra dançar a noite inteira, e passar todo o tempo sonhando acordada, vivendo fantasias desperta e realidades acordadas presenciadas em sonhos.
Se perguntarem por ae, não tenho ninguem para amar, nem um coração para dividir, apenas tudo o que levo comigo, e sera seu enquanto o tempo durar, sem saber se vou partir ao acordar ou ao morrer.
Se perguntarem por ae, não sigo um caminho certo, não sei da onde vim, e não faço ideia de onde chegar, pego carona na rabeira de uma moto, sigo o itinerante de um circo, acompanhando as estradas das nuvens.
Se perguntarem por ae, diga ao fim que nunca me viu, que sou apenas um sonho, uma nuvem, diga que sou um sorriso perdido nos labios de uma criança, a noite aproveitada ao lado de um alguem, um prazer, um poema, que começa intensamente e termina simplismente com : She lived and then died.

Lobos

Hoje senti medo!
Não era um medo qualquer, desses que temos ao ficar sozinhos no escuro. O medo que senti cresceu por cima de mim, agigantou-se tornou-se maior que eu, tornou-se eu.
Parei olhando-o nos olhos. Não pude continuar, encolhi-me num canto de mim. Paralizada de medo e temor. Meus dedos tremiam, meus olhos lacrimejaram-se. Senti meu coração falhar, e meu cerebro adormecer. E eu só queria chorar e dormir até tudo passar, mas não consegui. Não consegui fazer nada, além de ficar ali e ver, e de presenciar cada segundo.
Cada vez mais longe, senti-o partir-se de mim. Era fisico. Um membro essencial perdido; para sempre?
Não sabia. E o medo corroia-me. Poucas vezes senti um tal medo tão fisico e denso. Poucas vezes tive algo tão grande e importante a perder. No instante que notei, conscientizei-me de mim. De minhas extenções e intenções.
Sempre me achei alguem fora do padrão. Só então vi quão padronizada sou. Apenas uma garota. Só uma humana. Falha. Imperfeita. Desejosa. Ardente. Fria. Pensante. Passional. Emocional. Lacrimosa.
Sem nem mesmo perceber, deixei a pressão escorrer. Lagrimas, limpas e pesadas, eram gotas de medo, apenas uns pedaços de minha aflição.
Acanhada a um canto, sozinha. Apertada em medo e dor. Esquecida no clarão cego do sol. Olhei para cima. O céu azul afrontava-me. Limpo. Alegre. Ameno. Odiei-o. Como podia?
Fiz então medo em raiva e transformei dor em irritação. Explodi. Levantei-me unica, segui em frente comou m pequeno furacão; sou uma confusão ambulante. Ladeada por elas, sorri-lhe. Ele por sua vez mal notou-me, eu por minha vez ignorei-o então.
A dor e o medo escondidos por trás de um sorriso. Sabia que não livraria-me do medo, ou da dor. Tinha consciencia de que não era forte o bastante para lutar contra o sentimento quente que crescia em meu peito. Mas alivia-me saber. Sou forte o bastante para esconder dos olhos do mundo.

Primeiro de abril

Olhei para o céu, e a noite me era igual aos olhos, mais uma noite como todas as outras. Entrei no carro e liguei o som, uma música qualquer em uma rádio qualquer. Encostada a janela olhava os carros passando rápidos, as luzes movendo-se velozes. Alheia ao mundo concentrava-me em apenas ver, ver as árvores ficarem para trás, ver os fios passarem rápidos, ver a noite.


O telefone tocou uma, duas vezes, até que o atendesse, a voz do outro lado, fria, distante, uma sineta de alerta despertou em minha cabeça. Ansiosa olhei para minha mãe que dirigia. Tensa, entreguei-lhe o aparelho. Estava paralisada de medo, anseio, terror. Embora negasse veementemente eu sabia o que havia acontecido. Negava na esperança de acalentar meu coração aflito. Mas eu sabia, no fundo, era apenas uma mentira, mais uma que eu acrescentava a centenas de outras que contava para mim mesma constantemente.

Suspirei e olhei para ela. Pálida, gelada, o choque tirou-lhe tudo. As lagrimas escorriam silenciosas pelos olhos gritantes. Em um entendimento mutuo, acompanhei-lhe as lagrimas, e acrescentei-lhe os apelos. Meu mundo tornou-se negro. Cega pela dor que não sabia possível. Senti meu coração paralisar de medo e dor. Ouvia minha própria voz clamando, sem ter a noção das palavras que dizia. Tudo era apenas um borrão.

A mais nítida imagem a minha frente. Um rosto flutuante na noite. Um rosto calmo e paciente, tão bondoso. Apenas ele, que me dava tanto amor, e força. Como o mundo poderia continuar sem ele? Naquele momento odiei toda a felicidade.

As mãos tremulas dela, seguraram as minhas frias. Por aquele momento, a razão voltou-me aos olhos. Pedi força para continuar. Abateu-se então o pesado cansaço do sofrimento, e senti-me carregando o mundo.

Ao olhar para o lado, encarei os olhos mudos do mais puro sofrimento e percebi então que era ela quem precisava de mim. De filha virei mãe de minha mãe. E as lagrimas secaram. E o sofrimento guardou-se. E as angustias esconderam-se. E restou-me a plácida calma, serena e tranquila.

O carro parou, saltei. Abracei-a fortemente em meu peito. Como se pudesse protegê-la do mundo e de si mesma. Como se sobre minha proteção nenhum mal e sofrimento pudesse atingi-la. Entramos juntas em casa, de mãos dadas. Subimos juntas, e deixamo-nos a sós. A água do chuveiro batia forte em meu rosto, sem contudo, que eu pudesse senti-lo. O vapor enchia-me os pulmões, sem que eu o sentisse. Apenas borrões e lembranças passavam por mim. Sozinha em meu quarto, agarrada ao velho urso de pelúcia chorei a falta de meu heroi. Tão grande, majestoso, e agora fisicamente não mais que nada. Sabia em meu intimo que ele não me deixara. Prometerá-me que ficaria sempre comigo. A certeza de que ele cumpriria sua promessa era-me cega. Ouvi os passos perdidos de minha mãe. Levantei e arrumei a mala. Arrastei-a pelo casa até o sofá no qual minha mãe mantinha-se estática, encolhida a um canto lendo. A dor de vê-la corroeu-me por dentro. Meu instinto de mulher, de mãe, aflorou-se, sentei-me ao lado dela e abracei-a. Ela aconchegou-se a mim, satisfeita pelo carinho. Passou a ler uma oração,e enquanto lia, senti-a se acalmar. Ficamos em silencio. Esperando apenas. Juntas.

O barulho da porta abrindo preencheu a casa. Os sons calmos de meu pai e irmão, acalmaram-nos. Eles chegaram, arrumaram-se e nos partimos. No carro, o silencio dominava-nos. Cansados, exauridos pela dor e sofrimento. O radio cantava sozinho, sons que não conseguia entender. O sono foi mais forte, e os pensamentos tenebrosos passaram, e o sofrimento acalmou-se, e tudo transformou-se em sonho. Dormi.

Acordei já a porta do prédio de minha avó. Entramos no hall, o porteiro quieto, um ar mórbido acompanhava-nos. Um estranho cortejo fúnebre passeava em minha família aquela noite. Estranhamente, éramos sempre alegres e festivos demais, não naquela noite, não.

Entramos pela porta sempre aberta da cozinha. Costume de família, ninguém usa a porta da frente, embora não tivéssemos seguido a tradição seguinte, gritar chamando minha nona e nono. Entramos quietos. Sussurros de conversas plainavam pela sala iluminada. Seguimos rápidos para minha avó, preocupados e ansiosos. Tão pequena e frágil, tão indefesa, e mesmo assim tão indefensível. Que poderíamos dizer-lhe que já não soubesse? Como acalmar e acalentá-la? Olhei-a tristemente, abracei-a apertado, e deixei-a aos cuidados de minha mãe e tia.

Do outro lado, meu primo e madrinha estavam sentados, olhando todos atentos. Sentei-me com eles, e aos poucos um sentimento de conforto foi preenchendo-me.

Sempre os mesmos gostos, a mesma fome por saber, sempre a conversa calma e deliciosa. Música, filmes, livros, histórias. O jeito boêmio de ser, outra tradição de família. Sorri com o pensamento, um sorriso fraco, mas ainda um sorriso. Gostamos de tradições, pensei. Vovô estabeleceu varias delas. Sorri abertamente com a lembrança.

Peguei o pote de balas e coloquei-o próximo de nós. E entre conversas e balas e papeizinhos amontoados e reclamações de nossas mães as horas passaram.

A temida hora foi se aproximando. Celulares tocando, exigências sendo feitas, e a tensão voltou. “O corpo já chegou”, disse uma de minhas tias. Odiei-a na hora, quis gritar com toda a força, “É MEU AVÔ, NÃO O CORPO”, mas bastei-me de secar as lagrimas que escorriam insistentes. Refugiamo-nos, eu e meu primo na cozinha. A garrafa de café muito bem instalada entre nós. E aos poucos a conversa voltou. E a aparente calma tomou-me novamente. “Depois de fumar a melhor coisa é um cigarrinho”, comentou levianamente meu primo. Concordei com a cabeça. Queria muito um cigarro. Sentir a nicotina entrando, e acalmando-me. A vontade e sede por um tubinho branco com tabaco cresceu-me. Mas antes que pudesse dizer algo, minha tia entrou na cozinha e anunciou: “Está na hora, vamos temos que levar sua avó.”.

Apática, levantei-me segurando o braço de meu pai. Descemos o elevador, entramos no carro e seguimos para o velório. Subi a rampa firmemente segura pelos braços de meu pai. Simplesmente não conseguia mais barrar a dor que havia acumulado-se. Meu coração batia fraco, dolorido, sentia cada pulsar. Cega pelas lagrimas. Surda pela dor. Muda de sofrimento. Guiada pelo abraço protetor de meu pai, segui em passos trêmulos. Mal conseguia manter-me de pé. E aos poucos aproximei-me do caixão. Uma bola de dor enroscara-se em minha garganta. Meus pensamentos confusos iam e vinham, passado e presente, sem no entanto, apegar-se a nada. O mundo era só um borrão novamente. As mãos fracas de dor agarraram-se calejadas as roupas de meu pai. Enterrei a cabeça em seu peito e chorei. Chorei toda minha dor. Chorei todo o meu sofrimento. Chorei. E deixei chorar. E a cada lagrima, minha dor diminuía, e meu sofrimento acalentava-se. E quando as lagrimas esgotaram-se, levantei os olhos brilhantes, ainda sofridos, da camisa encharcada de meu pai. Encontrei seus olhos piedosos e compreensivos. Ele passou a mão por meus cabelos e me confortou em seu abraço. Chorei mais. Chorei até que apenas restasse a saudade. Chorei até que a força me voltasse. Chorei até que a razão se estabelece-se. E então, ao final de todas as lagrimas. Virei meu rosto e olhei-o.

Plácido e calmo, como há muito tempo eu não o via. Os olhos fechados. As mãos cruzadas no peito. Vestido com terno e gravata. Lembrei de como ele costumava ser bonito e impotente. Era uma figura e tanto. Tão engraçado, sempre com uma piada ou uma canção a fugir-lhe dos lábios. Conhecia todas, é claro, mas ria incansavelmente a cada nova, e repetitiva, rodada. E lembrei de mim, pequena, com ele gigante ao meu lado, ensinando a montar e selar um cavalo com o triplo de meu tamanho. E das balas sempre presentes em seus bolsos. E do riso doce. E das manias irreverentes. E dos carinhos cansados. E da fala mansa. E da musica do velho acordeom italiano. E das cantigas. E das loucuras. E de me por no colo para guiar. E de me ensinar a levar o gado para a mangueira. E de me ensinar a subir nas árvores. E a pegar galinhas. E me contar histórias. E me dar coragem para não ter medo do escuro. E me por para dormir. E abraçar. E me beijar. E conversar comigo. E brigar comigo. E discutir comigo. E estar comigo. E não consegui segurar o riso. Pois estar com ele e não sentir-se viva era tão impossível quanto não fechar os olhos para o sol de meio dia.

Contra todas as expectativas e suspeitas, ao fitar aquele rosto tão conhecido, as lagrimas escorreram acompanhadas de um cortejo sorridente e alegre. Ri de suas maluquices, ri de sua falta de juízo, ri de sua alegria em estar vivo, ri de suas histórias, ri de suas piadas, ri.

Percebi então sua presença ao meu lado, cuidando de todos nós. A calma invadiu-me como nunca antes naquela noite. Uma paz que eu não conhecia ha muito tempo. Minhas mãos duras de tanto segurar fortemente meu pai foram soltando-se. Fui desfazendo o abraço apertado dele e apertando-me a mim. Guardando-me para mim.

Com passos lentos aproximei-me dele sem tocá-lo, não conseguiria, tocá-lo era a confirmação física presente de sua ida, e ainda não estava preparada para encarar aquilo. Calma sorri-lhe e sussurrei-lhe adeus. Meu primo a meu lado abraçou-me, e eu abracei-o, ficamos os dois abraçados, apenas olhando-o, e nos lembrando.

Levantei os olhos e vi minha pequena avó. Sozinha, alheia ao mundo. Não pude conter-me, soltei-me de meu primo e com passos rápidos, quase correndo ajoelhei-me perante minha avó. Segurei-lhe bem firme as mãos, e fiquei ao seu lado. Apenas fiquei. Falávamos as vezes. Palavras soltas. Comentários vazios. Permaneci ajoelhada até que meus joelhos doessem, e continuei ajoelhada até que a dor passasse. Não sei quantas horas fiquei ao lado dela, sei apenas que não a deixei por nada. “Estou com sede”, murmurou-me depois de muito tempo. Os olhos bagos, vagos, sem vida. Apiedei-me dela como nunca. “Ela perdeu o amor da vida dela”, cafona, brega e clichê, mas a verdade mais pura que pensei em toda aquela noite. Levantei-me precariamente, com os joelhos doloridos. Andei apressada, com receio de deixá-la muito tempo só. Mas não consegui ir tão depressa quanto gostaria. Tios, tias, primos, primas, parentes. Perguntavam como ela estava. Ansiosos e preocupados com nossa pequena matriarca. Respondia-lhes apressada e seguia em frente. Voltei com a água.

“Eu estou sozinha”, disse para ninguém em especial.



“É claro que não”, devolvi-lhe, “Olhe quantos filhos, quantos netos, irmãos, não a deixaremos sozinha, nunca”

“Eu não tenho mais o Lando, eu estou sozinha”, insistiu quase como se não houvesse me ouvido

Naquele instante percebi o quão sem chão ela estava. Sua vida toda praticamente fora dedicada a ser a mulher do homem deitado ao lado. Eram casados há 56 anos. Mais que o triplo de minha vida. Eu a amo tanto, e o fato de não poder oferecer-lhe nenhum conforto machucou-me profundamente. Levantei-me novamente. Beijei-lhe as faces e deixei-a aos cuidados de minha mãe. Segui para junto de meus primos, e pela primeira vez na noite olhei as horas. 1:00 piscava no visor de meu celular quase sem bateria, que com um bip agudo desligou-se. A hora tardia, ou o fato de ter sentado e relaxado, eu não sei, mas apenas meu estomago resolveu pronunciar-se. Um de meus primos, ofereceu-se para levar a mim e meu irmão para comer. Chegamos, comemos, partimos.

Subi novamente a rampa. Instalei-me próxima a minha avó. Eram quase duas da manha. Minha mãe e minha tia persuadiam minha avó a voltar para o apartamento, descansar e dormir. Levaram-na dali. O lugar estranhamente mais silencioso, mais pacifico, mas ainda sim, mórbido e pesado. “Será uma longa noite”, pensei. Pela primeira vez deixei que meus pensamentos vagassem soltos. Meus olhos passaram pelas paredes brancas sem focar-se a nada. Nem mesmo uma idéia rodeava-me a mente. Desci a rampa e instalei-me no abraço reconfortante de meu pai. Era uma roda de homens, meu padrinho, meus tios, meu pai. Conversavam sobre alguma coisa que não dei atenção, assim como eu e meu primo tentávamos fazer antes, eles discutiam apenas para se distraírem.

Sentia-me confortável e acolhida nos braços de meu pai. Deixe-me levar. O cansaço e o sono começando a ganhar. Minha madrinha aproximou-se bondosamente, e abraçou-me. “Venha, vamos dormir em casa”. Deixe-me levar por ela, uma mãe carinhosa que entendia minha dor. Conversamos. Sempre me dera bem com ela. Uma professora de português. Chegamos na casa conhecida. Sentei-me com ela no sofá e conversamos. Meu primo chegou com a namorada. Lembramos dos antigos tempos. Não vi o tempo passar. Não vi nada. Apenas deixei-me levar pelo clima ameno e aconchegante. Como sentia falta daquilo. De meus primos. De minha família. É tão bom estar com eles, tão natural.

“São 5:30 da manhã”, anunciou meu primo. Minha madrinha levantou-se esbaforida. Entrando casa a dentro, pegar fronhas, arrumar lençóis. Timidamente entrei no quarto dela e de meu tio. Ela bondosamente estendeu-me um pijama, e me mostrou onde dormir. O lado esquerdo da cama. Coloquei o pijama e deitei-me. O calor, o cansaço, o sono, a dor, o escuro, o conforto, até mesmo a musica baixa, colaborou para que eu dormisse. Cai em sono profundo, deixando-me arrastar para as profundezas de minha mente sem sonhos. E eu pude descansar em paz. E tudo não passava de um longínquo primeiro de abril. E o borrão do mundo tornou-se negro. E as estrelas apagaram-se. E eu fui para um lugar onde toda realidade não era nada mais que um lampejo.

Importancia

A vida é uma trama de retalhos, cada pedacinho é algo que te tocou, alguem que te amou. Costurados todos juntos, com loucura, sanidade, alegria e lagrimas, as partes formam algo tão grande que não posso ver. Além de meus olhos, no centro de tudo, no horizonte do mundo, o conjuto se torna você. Nunca estamos sós, por não sermos um. Somos todos e tudo, e assim somos apenas nós. Um pouquinho de cada um, uma partezinha de cada coisa. Unidas por um não sei o que, que torna-te você, que torna-me eu, que torna a união de nois dois.

Como as areias da prais levadas pelo vento. Misturamo-nos todo o tempo de modos e jeito novos e impossiveis. Traçados de tipos unicos e inigualaveis. A beleza está na confusão formada. Risos e gritos. A irreverente maneira de viver. O incontrolavel jeito de ser. O delioso modo de viver. Eles me formam, e eu os formo. Não poderia ser eu sem eles, como eles são poderiam ser sem mim.

Mas mesmo assim, ao final da noite, vendo o sol levantar-se uma vez mais. Toda a trama desaparece sob seus olhos. E no fundo da alma, só importa o resultado. Em um dia de verão passado na cama ao lado, não vejo ou sinto alem da pele, e a trama do mundo some sob meus olhos. E ao final do dia, mudados estamos.

Luto


Para que dizer alguma coisa, enquanto meu coração permanece mudo?

Parece mentira, mas aconteceu de verdade. Um segundo ele estava aqui, e no outro não estava mais. E o grande heroi foi-se para sempre. Sinto verdadeiramente que ele ainda está ao meu lado. Mas é só, eu sinto, mas não vejo ou toco, não há o que ver ou tocar.
Ele era o maior. O meu segundo pai. E dentro de meu coração continua sendo. Mas eu estou em choque, de corpo e alma. Antes, via tudo de cima, como se não acontecesse comigo. Agora, não sei direito o que aconteceu. Não tenho certeza de onde ou quando estou.

01/04/2010 - Orlando Francischinelli

Descance em paz vovozinho. Nos te amamos muito.

Luto!

Não sou jornalista esportiva, de fato. Mas, creio eu, que todo grande jornalista merece ser reconhecido, e mais, merece uma homenagem em vida e outra na morte. Em vida ele teve seus premios e reconhecimento. Agora na morte, também.
Armando Nogueira foi o pai da cronica esportiva. Mostrou que poesia também se faz na bola, no esporte. Criou o jornalismo na Globo. Escreveu para grandes jornais. Descobriu grandes talentos, e muito mais.
Mas, mais que tudo isso, emocionou ao escrever belamente sobre o futebol. Não é preciso ser gênio para ver que futebol foi transformado em arte até mesmo nas palavras, mas foi preciso um gênio para faze-lo.
Ontem o jornalismo brasileiro sofreu uma enorme perda. Hoje, acordamos com luto e lagrimas. Apenas com o consolo de sua obra imortal e de suas tiradas eternas. Afinal quem nunca ouviu falar que Garrincha é um anjo de pernas tortas? ou que Pele se não tivesse nascido gente, teria nascido bola?

1 minuto de silencio pelo grande mestre do jornalismo esportivo. E uma salva de aplausos por tudo que ele humildimente nos deixou de lembrança.

Saudade

Porque se um dia, eu chegar bem de mansinho e te abraçar bem forte, não diga nada, que eu apenas sinto saudade de te ter bem por perto. Pra lembrar das horas e das tardes perdidas em nada. É apenas saudade, nada mais.

Idade

Não importa o que digam, não há idade para nada.
Não há epoca para brincar de pega-pega, ou limite pra fantasiar-se e correr.
Porque não tem idade pra deixar de ser criança.  Na verdade não há idade pra deixar de ser nada. Podemos ser tudo o que quizermos na idade que quizermos.

Idade é só um número, e da vida, o que entendem os números? Nada além de nada. Clarisse disse : "a vida ultrapassa qualquer entendimento". Pois é claro, viver não é entender, é sentir, é ser.

Eu vou brincar de pega-pega e esconde-esconde, sim. Vou correr na chuva. Pisar com os pés no chão. Deitar na grama e ver estrelas. Vou sonhar com bruxos e dragões. Viver na imaginação. Vou me fantasiar de princesa e salvar o meu principe.

Vou brigar com o mundo. Vou defender meus ideais. Vou dizer o que penso e o que quero. Vou dizer 'te amo' e não ter vergonha do que sinto. Vou fazer e querer. Vou achar corrupção imoral. Vou querer mudar o mundo. Vou achar futil e vou achar inutil.

Não quero saber de só sexo. Não quero ouvir em funk, sertanejo e pagode. Não gosto de pegação e balada. Tenho 80 anos mesmo. Prefiro ler um livro, tomar café e ouvir música boa. Deitar na rede, ali na varanda e ver as nuvens passar. Brincar com o cachorro, rolar no chão com  meu priminho. Ficar suja de terra e tomar banho de chuva. Tenho 8 anos mesmo.

Sair com meus amigos. Beber. Fazer besteira. Sair de noite, voltar ao amanhecer. Durmir o dia todo, acordar ao entardecer. Ter ressaca todo dia. Estudar até enloquecer. Me revoltar com a sociedade, é só querer. Trabalha de segunda a sexta, outra obrigação a perder. Enloquecer e esquecer da vida, de tudo. Tenho 18 anos mesmo.

Não tenho idade. Tenho altura de uma criança. O rosto de uma adolecente. A moral de uma velha. A cabeça de uma adulta. Sou a noiva do frankenstein. Formada por pedacinhos dos outros? Pedaçinhos de eu mesma, que cresci num mundo louco. Integrada por epocas distantes, diferentes. Tudo junto e batido dentro de uma cabeça confusa.

Por isso eu digo : vou brincar de pega-pega até o sol nascer e ir pro bar beber até a noite chegar. Porque a noite é uma esperança, que o vento não consegue calar.

Apaixonada.

Não que eu esteja, não é isso. É só que eu estava lendo e bom, o assunto me inspirou. Sempre inspira, na verdade. Desde, bom, desde sempre, me interesso sobre as atitudes das pessoas, mas não as atitudes em si, pois ela pouco significam. Sempre me interessei pelos motivos. O que move alguem a fazer algo?
Depois de ler muito sobre o assunto, cheguei a conclusão que a fé, o poder e o amor, são as coisas que mais movem as pessoas. Guerras, lutas, mortes, discuções interminaveis giram ao redor dessas questões.
E de todas elas, a que mais me inspira é o amor. E de todos os amores, o puro é o que eu mais admiro.

Eu não falo sobre amar, mãe, pai, filho, irmão, familia, amigos... Falo de amar alguem, um alguem especial, aquele que te da vontade de ser mãe, mulher.

Acho que amor é aquela coisinha boba que te faz sorrir sem porque. Que te da uma dor no peito, e um nó na garganta. Amor é aquela coisinha que te diz que sozinho você é feliz, mas junto, nada poderia ser melhor.
Amor é simples, e nunca pede muito mais que companhia. Companhia é boa, e nunca quer mais que somar, e multiplicar.
Amor é aquele doce gosto de primavera, e aquela agitação carnavalesca no estomago. Porque a gente descobre que borboletas não são indigestas, e nos da aquela cosseguinhas de felicidade.
Amor quando é amor, não faz mal a ninguem, não pede, não cobra, não diz, simplismente está ali por escolha. Porque amar alguem, é poder estar em todos os lugares do mundo, e em vez disso escolher deitar no sofá e ver um filme.
Amor é brega, cafone, e totalmente cliche. E quando se ama, se quer ser brega, cafona e totalmente cliche. Porque tantos já amaram, outros tantos foram amados. E já disseram de tantos jeitos, e já ouviram de tantos jeitos. E já mostraram de tantos jeitos, e já viram de tantos jeitos. Que parece tudo igual, sem originalidade.
Mas só quem ama sabe, que um sussuro de 'te amo' vindo da pessoa certa, é todo um poema unico e novo. Só porque foi dito. Só porque existe. Só porque se ama.

Poorquinho



pequeno porquinho.

Como é feliz, não sabe, se quer desconfia do que está por vir. Feliz em seu cadeirão, nada lhe importa, nada lhe incomoda.
Oh se soubesses! Das grandezas e baixezas que estão por vir. Das alegrias e tritezas. Que diria porquinho, se soubesse que veio, apenas para chorar, sofrer e ficar? Quereria ainda continuar? Quereria ainda ter nascido?
Os anos passaram depressa, do cadeirão a cadeira foi apenas um piscar de olhos. Da cadeira para carteira uma pequena distração. E dai para fora. Fumaça, cigarro, poeira. Enxente, inundação. Pobreza, destruição. Ora pequeno porquinho, se te contasse, se ao menos eu soubesse...

Guardaria bem no fundo, em um segredo sussurrado, as alegrias, os risos, as belezas. Tão fugazes, tão pequenos, temo que um forte olhar as faça voar. E porquinho, depois de conhecer toda tristeza e azar, que faria se te sussurra-se a beleza?
Um pequeno sopro, não mais que um abrir de labios, e apatir deles, contar-te, os amores, os abraços, os sussuros. Contaria em um segredo guardado a sete chaves, as amizades, as bagunças, as manhãs, as tardes, as noite, os invernos e verões.

Depois de tanto gritar-te tristezas, sussurrei-te belezas. E agora porquinho, que farás? Quereria nunca ter nascido? Quereria continuar apenas para em um sonho de vã esperança vislumbrar por um segundo o sussuro da beleza? Aguentaria viver em tamanha bagunça para ver as manhãs? Preferiria continuar nas estrelas ao invez de nascer?

Pequeno porquinho, não temas, pois nada te contei, é tão pequeno, que mal sabes o que te espera. Mas já pisquei os olhos, e o porquinho, não é mais tão pequeno, e na proxima distração ele já foi-se.

Sorrindo eu fico, distraida. Sei que no fundo, ele viveria uma vida aos berros de horrores, para sentir, as vezes, o sussurar de uma beleza, de uma paixão de um nada tão bom.
No fim, creio que não falo de porquinhos, mas quem poderá dizer?

Impossivel genética

E tão rapidamente quanto eu...
E tão intensamente quanto eu...
Não sabia que era assim, não sabia que eu era tão parecida assim...
Não com ele.

De olhos bem abertos para ter a certeza que via e não sonhava, fiquei parada esperando. Esperando. Sabia o que aconteceria, já vira muitas vezes acontecer comigo. E então, como o esperado. O olhar de gélida furia. A explosão da raiva. O grito. E então, o vazio. Deixando para trás pela subita retirada do raiva.
Fiquei estática enquanto observava o espaço que, momentos antes, ele ocupava.
Com a força de um soco a epifania atingi-me. Eu era tão ele como sou eu. Ri da ironia. Tudo o que nele me irritava estava também em mim. Os mesmos gestos. Os mesmos sorriso. Até o tom era igual. O mesmo jeito de rebelar-se. O mesmo.
Maldita genética. Maldita.

Suspirei pesada, e deixei que minha cabeça caisse sobre a mesa. E só então, encoberta pelo silencio e por meus cabelos, é que deixei a força de suas palavras atingirem-me. Só então deixei as lagrimas rolarem. Só, então.

O heroi aposentado

As pernas frágeis e tortas bambeiam arrastando o corpo enrugado. Ali vão mais de 80 anos. Os olhos baços passam por mim sem realmente ver-me. Ele encara o vazio de lembranças, as memórias deixadas pelo tempo.

Apoiado em mim ele caminha, sem sequer lembrar meu nome ou reconhecer minha face. Não consegue ao menos segurar o copo de água para matar-lhe a sede. As lagrimas escorrem-lhe a face sem vergonha, é velho demais para sentir timidez.

O gigante dos meus sonhos é agora apenas um velho enfraquecido. O tempo finalmente levou a melhor, e dia-a-dia ganha a luta que todos travamos desde que nascemos.

Embora fraco vejo no fundo dos olhos parcos, um brilho, uma força, uma sombra de tudo que foi. Uma sombra que luta para continuar a acordar e que não se deixa vencer.

O velho avô que antes me punha nos ombros e me contava histórias hoje mal consegue reunir forças para dizer meu nome.

Perdido em meio a suas lembranças ele sussurra histórias que conheço décor, mas que ouço ainda, ansiosa por mais. Rio das mesmas piadas e surpreendo-me com as mesmas aventuras.

Meu herói aposentado, meu bom velhinho, meu avô.

Suspiro cansada e feliz, sentada a seu lado. Mais um dia a seu lado, cuidando e tomando conta do homem que antes cuidou de mim.

Hoje seguro sua mão e lhe conto histórias, apenas porque ontem ele segurou a minha e me fez continuar a andar, me fez não ter medo.

Dou-lhe um beijo de boa noite e encosto a porta, deixando uma brecha para a sua entrar.



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2010

Inicio de ano. Inicio novo. De novo.
Uma chance a mais de errar. Mil chances a mais de tentar aprender.
Tudo de novo. Novo. De novo.

Fecho os olhos. Um ano inteiro virou um filme mudo.
Abro os olhos. Um ano inteiro transforma-se numa vida vibrante.

Um sussurro de vida me sopra uma verdade.
O não tenha medo da morte. Tenha medo da vida não vivida.

Levanto-me e encaro o presente nos olhos.
Um desafio a mais. Uma montanha a mais.
Um sorriso a mais. Uma vitoria a mais.

Começo a andar.
Começo a sonhar.
Tenho vida a viver.

Roubava...

O vão da escada olha-me por cima, curioso. O escuro da-me suas mãos azuis, fazendo companhia a mãos, cabelos, peles e roupas.
Resta apenas um punhado de mim. Sou umas roupas na lavanderia, algumas panelas na pia. Sou um punhado de lençõis desarrumados, um resto de jornais jogados.
Sobrou-me um corredor vazio, uma tábua solta, cores díspares. Os sussurros correm de minha boca. As palavras escorrem pesadas e cirandeiam. Têm cores que vão do fraco azul-noite quando o sol está preste a nascer, até o alaranjado esfumaçado de uma velha história que queima.
Pequenos brilhos esparsos que na noite velam meus sonos mortos.
São como nunca vi, pois nunca existiram se não em minha fraca visão turva.
Nem mesmo o fim vi aproximar-se. Nem mesmo as nuvens vi chegando. Nem mesmo a mim vi indo. Não vi nada que não fosse o céu. Mas não era qualquer céu.
Vi apenas o fim de céu. Naquele curto segundo de vida no qual noite e dia equilibram-se na gangorra. Aquele segundo em que todos olham para si. Eu olho para cima.
Abro os braços e espero de olhos fechados.
A chuva desce, carrega as luzes.
O vento sobra-me.
Agarro-me às nuvens, sou levada para longe nos braços dela.