Primeiro de abril

Olhei para o céu, e a noite me era igual aos olhos, mais uma noite como todas as outras. Entrei no carro e liguei o som, uma música qualquer em uma rádio qualquer. Encostada a janela olhava os carros passando rápidos, as luzes movendo-se velozes. Alheia ao mundo concentrava-me em apenas ver, ver as árvores ficarem para trás, ver os fios passarem rápidos, ver a noite.


O telefone tocou uma, duas vezes, até que o atendesse, a voz do outro lado, fria, distante, uma sineta de alerta despertou em minha cabeça. Ansiosa olhei para minha mãe que dirigia. Tensa, entreguei-lhe o aparelho. Estava paralisada de medo, anseio, terror. Embora negasse veementemente eu sabia o que havia acontecido. Negava na esperança de acalentar meu coração aflito. Mas eu sabia, no fundo, era apenas uma mentira, mais uma que eu acrescentava a centenas de outras que contava para mim mesma constantemente.

Suspirei e olhei para ela. Pálida, gelada, o choque tirou-lhe tudo. As lagrimas escorriam silenciosas pelos olhos gritantes. Em um entendimento mutuo, acompanhei-lhe as lagrimas, e acrescentei-lhe os apelos. Meu mundo tornou-se negro. Cega pela dor que não sabia possível. Senti meu coração paralisar de medo e dor. Ouvia minha própria voz clamando, sem ter a noção das palavras que dizia. Tudo era apenas um borrão.

A mais nítida imagem a minha frente. Um rosto flutuante na noite. Um rosto calmo e paciente, tão bondoso. Apenas ele, que me dava tanto amor, e força. Como o mundo poderia continuar sem ele? Naquele momento odiei toda a felicidade.

As mãos tremulas dela, seguraram as minhas frias. Por aquele momento, a razão voltou-me aos olhos. Pedi força para continuar. Abateu-se então o pesado cansaço do sofrimento, e senti-me carregando o mundo.

Ao olhar para o lado, encarei os olhos mudos do mais puro sofrimento e percebi então que era ela quem precisava de mim. De filha virei mãe de minha mãe. E as lagrimas secaram. E o sofrimento guardou-se. E as angustias esconderam-se. E restou-me a plácida calma, serena e tranquila.

O carro parou, saltei. Abracei-a fortemente em meu peito. Como se pudesse protegê-la do mundo e de si mesma. Como se sobre minha proteção nenhum mal e sofrimento pudesse atingi-la. Entramos juntas em casa, de mãos dadas. Subimos juntas, e deixamo-nos a sós. A água do chuveiro batia forte em meu rosto, sem contudo, que eu pudesse senti-lo. O vapor enchia-me os pulmões, sem que eu o sentisse. Apenas borrões e lembranças passavam por mim. Sozinha em meu quarto, agarrada ao velho urso de pelúcia chorei a falta de meu heroi. Tão grande, majestoso, e agora fisicamente não mais que nada. Sabia em meu intimo que ele não me deixara. Prometerá-me que ficaria sempre comigo. A certeza de que ele cumpriria sua promessa era-me cega. Ouvi os passos perdidos de minha mãe. Levantei e arrumei a mala. Arrastei-a pelo casa até o sofá no qual minha mãe mantinha-se estática, encolhida a um canto lendo. A dor de vê-la corroeu-me por dentro. Meu instinto de mulher, de mãe, aflorou-se, sentei-me ao lado dela e abracei-a. Ela aconchegou-se a mim, satisfeita pelo carinho. Passou a ler uma oração,e enquanto lia, senti-a se acalmar. Ficamos em silencio. Esperando apenas. Juntas.

O barulho da porta abrindo preencheu a casa. Os sons calmos de meu pai e irmão, acalmaram-nos. Eles chegaram, arrumaram-se e nos partimos. No carro, o silencio dominava-nos. Cansados, exauridos pela dor e sofrimento. O radio cantava sozinho, sons que não conseguia entender. O sono foi mais forte, e os pensamentos tenebrosos passaram, e o sofrimento acalmou-se, e tudo transformou-se em sonho. Dormi.

Acordei já a porta do prédio de minha avó. Entramos no hall, o porteiro quieto, um ar mórbido acompanhava-nos. Um estranho cortejo fúnebre passeava em minha família aquela noite. Estranhamente, éramos sempre alegres e festivos demais, não naquela noite, não.

Entramos pela porta sempre aberta da cozinha. Costume de família, ninguém usa a porta da frente, embora não tivéssemos seguido a tradição seguinte, gritar chamando minha nona e nono. Entramos quietos. Sussurros de conversas plainavam pela sala iluminada. Seguimos rápidos para minha avó, preocupados e ansiosos. Tão pequena e frágil, tão indefesa, e mesmo assim tão indefensível. Que poderíamos dizer-lhe que já não soubesse? Como acalmar e acalentá-la? Olhei-a tristemente, abracei-a apertado, e deixei-a aos cuidados de minha mãe e tia.

Do outro lado, meu primo e madrinha estavam sentados, olhando todos atentos. Sentei-me com eles, e aos poucos um sentimento de conforto foi preenchendo-me.

Sempre os mesmos gostos, a mesma fome por saber, sempre a conversa calma e deliciosa. Música, filmes, livros, histórias. O jeito boêmio de ser, outra tradição de família. Sorri com o pensamento, um sorriso fraco, mas ainda um sorriso. Gostamos de tradições, pensei. Vovô estabeleceu varias delas. Sorri abertamente com a lembrança.

Peguei o pote de balas e coloquei-o próximo de nós. E entre conversas e balas e papeizinhos amontoados e reclamações de nossas mães as horas passaram.

A temida hora foi se aproximando. Celulares tocando, exigências sendo feitas, e a tensão voltou. “O corpo já chegou”, disse uma de minhas tias. Odiei-a na hora, quis gritar com toda a força, “É MEU AVÔ, NÃO O CORPO”, mas bastei-me de secar as lagrimas que escorriam insistentes. Refugiamo-nos, eu e meu primo na cozinha. A garrafa de café muito bem instalada entre nós. E aos poucos a conversa voltou. E a aparente calma tomou-me novamente. “Depois de fumar a melhor coisa é um cigarrinho”, comentou levianamente meu primo. Concordei com a cabeça. Queria muito um cigarro. Sentir a nicotina entrando, e acalmando-me. A vontade e sede por um tubinho branco com tabaco cresceu-me. Mas antes que pudesse dizer algo, minha tia entrou na cozinha e anunciou: “Está na hora, vamos temos que levar sua avó.”.

Apática, levantei-me segurando o braço de meu pai. Descemos o elevador, entramos no carro e seguimos para o velório. Subi a rampa firmemente segura pelos braços de meu pai. Simplesmente não conseguia mais barrar a dor que havia acumulado-se. Meu coração batia fraco, dolorido, sentia cada pulsar. Cega pelas lagrimas. Surda pela dor. Muda de sofrimento. Guiada pelo abraço protetor de meu pai, segui em passos trêmulos. Mal conseguia manter-me de pé. E aos poucos aproximei-me do caixão. Uma bola de dor enroscara-se em minha garganta. Meus pensamentos confusos iam e vinham, passado e presente, sem no entanto, apegar-se a nada. O mundo era só um borrão novamente. As mãos fracas de dor agarraram-se calejadas as roupas de meu pai. Enterrei a cabeça em seu peito e chorei. Chorei toda minha dor. Chorei todo o meu sofrimento. Chorei. E deixei chorar. E a cada lagrima, minha dor diminuía, e meu sofrimento acalentava-se. E quando as lagrimas esgotaram-se, levantei os olhos brilhantes, ainda sofridos, da camisa encharcada de meu pai. Encontrei seus olhos piedosos e compreensivos. Ele passou a mão por meus cabelos e me confortou em seu abraço. Chorei mais. Chorei até que apenas restasse a saudade. Chorei até que a força me voltasse. Chorei até que a razão se estabelece-se. E então, ao final de todas as lagrimas. Virei meu rosto e olhei-o.

Plácido e calmo, como há muito tempo eu não o via. Os olhos fechados. As mãos cruzadas no peito. Vestido com terno e gravata. Lembrei de como ele costumava ser bonito e impotente. Era uma figura e tanto. Tão engraçado, sempre com uma piada ou uma canção a fugir-lhe dos lábios. Conhecia todas, é claro, mas ria incansavelmente a cada nova, e repetitiva, rodada. E lembrei de mim, pequena, com ele gigante ao meu lado, ensinando a montar e selar um cavalo com o triplo de meu tamanho. E das balas sempre presentes em seus bolsos. E do riso doce. E das manias irreverentes. E dos carinhos cansados. E da fala mansa. E da musica do velho acordeom italiano. E das cantigas. E das loucuras. E de me por no colo para guiar. E de me ensinar a levar o gado para a mangueira. E de me ensinar a subir nas árvores. E a pegar galinhas. E me contar histórias. E me dar coragem para não ter medo do escuro. E me por para dormir. E abraçar. E me beijar. E conversar comigo. E brigar comigo. E discutir comigo. E estar comigo. E não consegui segurar o riso. Pois estar com ele e não sentir-se viva era tão impossível quanto não fechar os olhos para o sol de meio dia.

Contra todas as expectativas e suspeitas, ao fitar aquele rosto tão conhecido, as lagrimas escorreram acompanhadas de um cortejo sorridente e alegre. Ri de suas maluquices, ri de sua falta de juízo, ri de sua alegria em estar vivo, ri de suas histórias, ri de suas piadas, ri.

Percebi então sua presença ao meu lado, cuidando de todos nós. A calma invadiu-me como nunca antes naquela noite. Uma paz que eu não conhecia ha muito tempo. Minhas mãos duras de tanto segurar fortemente meu pai foram soltando-se. Fui desfazendo o abraço apertado dele e apertando-me a mim. Guardando-me para mim.

Com passos lentos aproximei-me dele sem tocá-lo, não conseguiria, tocá-lo era a confirmação física presente de sua ida, e ainda não estava preparada para encarar aquilo. Calma sorri-lhe e sussurrei-lhe adeus. Meu primo a meu lado abraçou-me, e eu abracei-o, ficamos os dois abraçados, apenas olhando-o, e nos lembrando.

Levantei os olhos e vi minha pequena avó. Sozinha, alheia ao mundo. Não pude conter-me, soltei-me de meu primo e com passos rápidos, quase correndo ajoelhei-me perante minha avó. Segurei-lhe bem firme as mãos, e fiquei ao seu lado. Apenas fiquei. Falávamos as vezes. Palavras soltas. Comentários vazios. Permaneci ajoelhada até que meus joelhos doessem, e continuei ajoelhada até que a dor passasse. Não sei quantas horas fiquei ao lado dela, sei apenas que não a deixei por nada. “Estou com sede”, murmurou-me depois de muito tempo. Os olhos bagos, vagos, sem vida. Apiedei-me dela como nunca. “Ela perdeu o amor da vida dela”, cafona, brega e clichê, mas a verdade mais pura que pensei em toda aquela noite. Levantei-me precariamente, com os joelhos doloridos. Andei apressada, com receio de deixá-la muito tempo só. Mas não consegui ir tão depressa quanto gostaria. Tios, tias, primos, primas, parentes. Perguntavam como ela estava. Ansiosos e preocupados com nossa pequena matriarca. Respondia-lhes apressada e seguia em frente. Voltei com a água.

“Eu estou sozinha”, disse para ninguém em especial.



“É claro que não”, devolvi-lhe, “Olhe quantos filhos, quantos netos, irmãos, não a deixaremos sozinha, nunca”

“Eu não tenho mais o Lando, eu estou sozinha”, insistiu quase como se não houvesse me ouvido

Naquele instante percebi o quão sem chão ela estava. Sua vida toda praticamente fora dedicada a ser a mulher do homem deitado ao lado. Eram casados há 56 anos. Mais que o triplo de minha vida. Eu a amo tanto, e o fato de não poder oferecer-lhe nenhum conforto machucou-me profundamente. Levantei-me novamente. Beijei-lhe as faces e deixei-a aos cuidados de minha mãe. Segui para junto de meus primos, e pela primeira vez na noite olhei as horas. 1:00 piscava no visor de meu celular quase sem bateria, que com um bip agudo desligou-se. A hora tardia, ou o fato de ter sentado e relaxado, eu não sei, mas apenas meu estomago resolveu pronunciar-se. Um de meus primos, ofereceu-se para levar a mim e meu irmão para comer. Chegamos, comemos, partimos.

Subi novamente a rampa. Instalei-me próxima a minha avó. Eram quase duas da manha. Minha mãe e minha tia persuadiam minha avó a voltar para o apartamento, descansar e dormir. Levaram-na dali. O lugar estranhamente mais silencioso, mais pacifico, mas ainda sim, mórbido e pesado. “Será uma longa noite”, pensei. Pela primeira vez deixei que meus pensamentos vagassem soltos. Meus olhos passaram pelas paredes brancas sem focar-se a nada. Nem mesmo uma idéia rodeava-me a mente. Desci a rampa e instalei-me no abraço reconfortante de meu pai. Era uma roda de homens, meu padrinho, meus tios, meu pai. Conversavam sobre alguma coisa que não dei atenção, assim como eu e meu primo tentávamos fazer antes, eles discutiam apenas para se distraírem.

Sentia-me confortável e acolhida nos braços de meu pai. Deixe-me levar. O cansaço e o sono começando a ganhar. Minha madrinha aproximou-se bondosamente, e abraçou-me. “Venha, vamos dormir em casa”. Deixe-me levar por ela, uma mãe carinhosa que entendia minha dor. Conversamos. Sempre me dera bem com ela. Uma professora de português. Chegamos na casa conhecida. Sentei-me com ela no sofá e conversamos. Meu primo chegou com a namorada. Lembramos dos antigos tempos. Não vi o tempo passar. Não vi nada. Apenas deixei-me levar pelo clima ameno e aconchegante. Como sentia falta daquilo. De meus primos. De minha família. É tão bom estar com eles, tão natural.

“São 5:30 da manhã”, anunciou meu primo. Minha madrinha levantou-se esbaforida. Entrando casa a dentro, pegar fronhas, arrumar lençóis. Timidamente entrei no quarto dela e de meu tio. Ela bondosamente estendeu-me um pijama, e me mostrou onde dormir. O lado esquerdo da cama. Coloquei o pijama e deitei-me. O calor, o cansaço, o sono, a dor, o escuro, o conforto, até mesmo a musica baixa, colaborou para que eu dormisse. Cai em sono profundo, deixando-me arrastar para as profundezas de minha mente sem sonhos. E eu pude descansar em paz. E tudo não passava de um longínquo primeiro de abril. E o borrão do mundo tornou-se negro. E as estrelas apagaram-se. E eu fui para um lugar onde toda realidade não era nada mais que um lampejo.

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