Porta

Fecho a porta do quarto com cuidado, tomando cuidado para não fazer nenhum barulho, prestando atenção para não incomodar ninguém. Já sou incomoda o bastante sozinha. Encosto na parede e vou escorregando devagar até chegar ao chão. Seguro o ar, com medo de fazer barulho, com medo de assustar, quem sabe a mim mesma. Suspiro e começo a chorar baixinho. As lagrimasescorrem soltas por meu rosto, não a nada a se fazer. Posso olhar em volta e ver o que restou, uns livros seus na estante, alguns cds que você deixou, uns poucos filmes restaram, as blusas que ficaram perdidas no armário. Tiro as sandálias e jogo-as a umcanto, vazio e sem sentido, outro canto abandonado.
Não são todos os dias tão ruins assim, alguns são realmente bons e outros, nem tanto. Como ontem, ontem foi um bom dia. Sai com minhas amigas da faculdade, e o barulho e os risos me distraíram, me tornaram leve, fui dormir em paz. Mas hoje, hoje eu vi osilencio e é no silencio que vejo você. E não era o nosso silencio, era o meu silencio longe do seu, era o seu silencio com outra.
Não sei quanto tempo passou desde que saiu de casa, foi embora e levou a sua parte da bagunça. Tudo agora é tão excessivamente arrumado sem você, preferia antes, com nossa bagunça, nosso cheiro, nossa brincadeira, nosso silencio.
O chão está frio e eu quase posso ouvir você dizendo: “Saia do chão vai pegar um resfriado sua irresponsável”. Riu sozinha com minhas lembranças gostosas e me imagino respondendo “Não vou sair seu chatinho responsável, deixe-me ser feliz em paz”. Mas os tempos são outros e as falas são outras.
Levanto devagar, não quero fazer meu mundo girar novamente, minha constante tontura me basta. Tontura, enjôo, meu mundogira, perdi meu ponto de equilíbrio. Sempre fui meio desequilibrada, caindo pelos passos e repassos, literal e figurativamente falando. Nunca estive em perfeito equilíbrio com nada, por isso corria tanto, mudava tanto, não me importava tanto. Mas com você era diferente, me sentia em equilíbrio, em sintonia com algo. Ao que parece, estava errada, ou era só você que não estava emequilíbrio.
Uns passos trôpegos me levam até a  cama desarrumada, como sempre, não me dei o trabalho de arrumá-la para não ter o trabalho de desarrumá-la mais tarde. Jogo-me sobre os lençóis revirados e percebo quanto temos em comum. Ambos jogados em cima da cama, largados de qualquer jeito, sem ninguém que se importe o bastante para segurar e nos arrumar.
Durmo ouvindo atentamente o silencio. Adormeço atormentada pelo espaço extra na cama. No fundo, eu só espero que você abra a porta, atravesse o quarto e deite comigo na cama, como antes, como quando era certo. Ouço o silencio da esperança de ouvir o seu barulho e a sua bagunça voltando para casa, mas de um modo ou de outro eu sei que é tudo ilusão. Se você por um acaso adentrar pela porta, não será para me pegar nos braços, sussurrar nos meus ouvidos tudo o que fará comigo, me jogar na cama e me segurar bem forte dizer que me quer antes de me beijar. Não, se você entrar pela porta será para pegar os livros que esqueceu, os filmes que tanto gosta, uma camisa que te deixa particularmente charmoso, e só.
Afasto tais pensamentos com a força das lagrimas que escorrem. Preciso dormir, preciso sonhar, preciso continuar e dessa vez será sem você. Abraçada lealmente à noite, as lagrimas, ao lençol, eu durmo ouvindo ao silencio.

Tardes...

A cama toda bagunçada, estou jogada de qualquer jeito sobre o lençol bagunçado. Lá fora o céu está claro e azul. O calor do sol entra pela janela aberta, um sabado parado de tão calmo. Ele entrou no quarto e sentou-se na cadeira, esticou as pernas e apoiou-nas na cama, sorriu-me.
Suspirei cansada antes de esticar-me e pegar o violão ao lado da cama. Ele pegou-o de mim e olhou-me esperando que eu lhe dissesse a música a tocar. Revirei os olhos impacientes e encarei o teto, meus pensamentos voltados para nada, era só o que queria, nada. Ficar lá deitada, olhando o céu, sentindo uma suave brisa e aconchegante calor do sol, que esporadicamente chegava até mim.
"Não seja tão teimosa", ele sorriu antes de começar a tocar. A melodia suave espalhou-se, sua voz grave e conhecida murmurava uma canção que eu conhecia tão bem. Sem resistir, comecei a cantar timidamente.
"Porque você me deixa tão solto", minha voz somada a dele não era assim tão ruim embora nenhum de nós cante bem. A música terminou e eu ri para ele.
"Seu idiota, sabia que eu não resistiria"
"Sua idiota, é claro que eu sabia"
Rimos juntos, e agora mais acordada, sentei-me para contar-lhe minha noite anterior. Ele dedilha no violão alguma música boba e infantil dos desenhos que costumavamos assistir. Suspirei, tomando folego para contar, nossas atuais fofocas nada tinham com os infantis contos e aventuras de antes. Haviamos crescido, e mesmo assim, eramos os mesmos, ou quase.
Outro dia chegou e passou ao lado dele, como tantos outros. Como tantos outros. Minha mãe busina na frente da casa, eu rapidamente abraço-o bem apertado, em uma semana podei vê-lo novamente. Desço as escadas correndo, um beijo na irmã dele outro na mãe, um abraço para o irmão e corro porta afora. Ele está na janela e me da adeus, mas eu sei que é apenas um até logo.

Escritora

As paredes reverberaram com a força da batida. O som da porta contra o batente estendeu-se por toda a casa. Olhou rapidamente de um lado para o outro do quarto. Atravessou o quarto em três passos. Abaixou-se e puxou a mochila que estava jogada em baixo da cama. Virou-se e começou a jogar para dentro as coisas de que precisaria. Calcinhas, carteira, meias, jeans, sutiã, camisetas, escova de dente, um casaco, o álbum de fotografias, o caderno, uma caneta. Incessantemente olhou de um lado para o outro. Buscava qualquer coisa importante que tivesse por acaso deixado para trás. Viu jogado sobre a cama bagunçada o computador portátil. Um notebook que ganhara três natais antes. Colocou-o na mochila. Certa de que nada ficara para trás, foi buscar seu bem mais precioso. Pegou com cuidado a câmera, colocando-a na capa de proteção. Meteu-a também na mochila, com cuidado. Colocou a mochila nas costas e subiu na janela. Por um segundo parou. Por um último segundo olhou com carinho para o quarto que durante tantos anos havia sido seu refugio, sua fortaleza, sua prisão. A nostalgia abateu-se sobre ela por um segundo. E então, passou. Pegou a pasta que estava sobre a mesa. Saltou para a noite.


Sentiu-se afundar um pouco quando seus pés tocaram a terra molhada. Dentro da casa os gritos recomeçaram. Não olhou para trás. Apenas começou a correr. Chegou, escalou e saltou o muro com a mesma facilidade que tivera com a janela. Alcançou a rua. Olhou para os dois lados antes de continuar. Com passos rápidos ganhou a noite. Seu coração disparado pela adrenalina. Seus passos velozes pelo desespero. Suas mãos tremiam. Seus olhos ardiam.

Respirou fundo, absorvendo a noite. Olhou para o céu. A noite estava nublada, não se viam estrelas. Continuou seguindo em frente, não olhava para trás. Seus passos agora diminuíam de velocidade. Não mais corria ensandecida pela rua. Andava, quase calmamente. Levou tempo para olhar ao redor. A rua quase sem iluminação. Deserta. Quase não se percebia vida ao redor.

Talvez não tivesse sido tão boa idéia fugir assim, de noite. Apressou novamente os passos. O coração voltou a disparar. As mãos a tremer. A adrenalina bombeava-lhe para frente, seguindo.

Se antes por ansiedade, agora por medo. Segurou firmemente com as duas mãos a pasta com todos os seus escritos. Acalmou-se. Lembrou de seu objetivo. Sair daquela vida. Deixar tudo para trás. Seguir em frente. Ganhar o mundo. Olhou novamente para o céu. A lua ganhara as nuvens, e exibia-se pálida e solitária em meio ao negrume da noite.

Abaixou os olhos dos céus, tinha que manter-se firme a terra. Seus olhos pousaram nos ponteiros do relógio. O susto, o pavor. Teria que correr se não quisesse perder o ônibus. Patinando pelas ruas molhadas, correu o máximo que pode. O máximo que a água, terra, folhas mortas e pedras lhe permitiram. Maldita falta de civilização. A raiva, o ódio, o rancor, reacenderam-lhe na alma. Correu mais.

Chegou ofegante no ponto de ônibus. Seu peito arfava dolorosamente. Não se importou. O ônibus acabara de chegar. Sorriu radiante. Saltou. Perdeu seu chão de terra. Ganhou o chão de metal firme da civilização. Andou desajeitada pelo ônibus vazio. Entregou o dinheiro para o cobrador. Sentou-se no meio do ônibus, num lugar vago a janela.

Pela primeira vez na noite, sentiu-se realmente bem e segura. Sabia que seguia para um caminho totalmente desconhecido e sozinho, mas mesmo assim, muito melhor que a corrente de gritos e grilhões que tinha na grande casa velha.

Ajeitou-se no acento pensando em tudo o que deixara para trás. Os pais briguentos e ultrapassados. Os irmãos machistas e arrogantes. O bairro afastado que mais parecia uma pequena aldeia medieval. A casa grande, imponente, e caindo aos pedaços. O preconceito e julgamento de uma população que parara de viver no século dezenove. A falta de compreensão, dos professores, da diretora. Os xingamentos e amolações dos colegas da escola. A inexistência de amigos. A solidão praticamente absoluta que vivia. Não agüentava mais. Não podia mais. Era diferente, sabia disso, mas não justificava o tratamento de infecciosa que recebia.

Lembrou-se da única luz em sua vida. A pequena irmã. Machucava-lhe deixá-la para trás. Mas não sabia como seria sua vida daqui para frente, como imporia para a irmãzinha o mesmo tipo de vida? Não, era melhor assim. Por enquanto.

Como toda família de destaque tradicional, a sua era basicamente machista. Prezava os filhos homens acima de tudo. Apenas esperava que suas filhas fossem belas e educadas o bastante para arrumar bons maridos. Eles ainda tinham a ousadia de dizer que viviam no século vinte e um. Para desgosto absoluto de seus pais, ela nascera antes de todos os outros. Uma primogênita. Uma desgraça para a família. Para aumentar a desgraça, o irmão gêmeo morrera no parto. Ela a irmã ingrata, a filha, a mulher, sobrevivera. Com o passar dos anos, filhos homens nasceram para fazer a alegria dos velhos. Enquanto ela era deixada de lado, a sua própria sorte. Sozinha, solitária. Por um lado aqueles foram os piores anos de sua vida. Por outro, foram os melhores. Até os doze anos. Nessa época nascera sua pequena luz. Uma irmã. Foi igualmente desprezada pelos pais, pelos irmãos, mas não por ela. Teriam sempre uma a outra. Até agora. Seus olhos arderam até derramar uma lagrima, a primeira em muitos anos. Não chorava por si, mas pela pequena que abandonara.

As luzes do centro começaram a brilhar mais perto. Secou sua lagrima. Afastou os pensamentos de seu passado. Tinha que pensar em si. Um silencio arrasador tomou conta dela. Seus pensamentos sempre a mil por hora, agora se mantinham quietos, afastados, indiferentes. O ônibus seguira seu exemplo. Antes tomado por cochichos e risos, agora se mantinha estranhamente quieto. Uma aura de ansiedade e nervosismo circundava o lugar. Olhou pela janela. Cada vez mais perto das luzes, que incessantemente brilhavam.

Eram promessas de futuro, de diversão. Cada pequena luz que brilha na escuridão, é uma pequena promessa de chance. E como uma onda de prosperidade, as luzes invadiram todas juntas o ônibus escuro. Era um mar de cores e brilhos. Através da janela podia ver. Os luminosos grandes e coloridos. Cada um mais brilhante e chamativo que o anterior. Propagandas gritavam, chamavam, em cores berrantes, qualquer coisa que atraísse alguém.

Dentro do ônibus, uma profusão confusa e colorida de cores piscava. Horas com mais cores do que imaginava ser possível, e algumas horas, sem cor alguma brilhando. Nessas horas, que não passavam de minutos, onde ficava imersa em escuridão, enquanto o mundo lá fora brilhava em alegria e promessas, nessas horas sentia medo. Medo de se perder nas promessas coloridas, e acabar com apenas isto, promessas coloridas.

Pegou o celular e procurou em sua lista de contatos um nome. O único nome que realmente poderia ajudá-la. Conhecera-o alguns anos antes, em um dos muitos festivais que participara. Ela impressionara-se com sua experiência e talento. Ele impressionara-se com seu sobrenome. Normalmente isso a teria tirado do serio, e feito com que se irritasse, mas na ocasião percebeu que aquela seria a única forma de chamar a atenção dele. Continuaram em contato, por e-mail.

O nome dele piscando na tela de seu celular. Ligar. Colocou o aparelho no ouvido e esperou. O som do chamado a torturava, ainda era cedo, não passavam das nove da noite, porque ele simplesmente não atendia logo o telefone? O medo rodeou-lhe, cercando-a em territórios cada vez menores. Aproximando-se. “Alo?” ele atendeu risonho e incerto, provavelmente estava bebendo, pensou irritada.

“Eu aceito. Estou aqui.”. Ela disse rápida e objetiva. Não precisou dizer quem era, ele sabia. Por uns instantes ele não respondeu. Ela quase podia ver a sua expressão, em um misto de impressão, espanto e incerteza.

“Onde?” ele sussurrou refazendo-se do susto.

“Em frente ao Plaza”. Ela desligou sem esperar resposta, sem se preocupar em ser educada. Sabia que era esse tipo de atitude que ele esperava dela. Uma rica e mimadinha garota de uma antiga importante família. Ele não sabia de nada. “E também não precisa saber”, pensou com amargura. Vislumbrou de longe a frente do imponente hotel. Lembrava-se dele de sua infância. Os finais de semana na suíte da família, apenas para que os pais e os irmãos fossem a alguma festa, apresentação ou evento idiota. Ela sempre ficava no hotel. No começo por deixarem-na abandonada, depois, por birra. Ela, quando crescera, tornara-se uma garota que não era de todo feia, e arrumada tornava-se até bonita. Seus pais queriam exibi-la por ai. Apenas um rostinho agradável de olhar. Levantou-se com raiva, e apertou o aviso para o ônibus parar. O motorista freou com brusquidão, e ela perdeu o equilíbrio. Voou para frente, e conseguiu apoiar-se em um dos cabos de segurança antes de cair estatelada no chão. Mas não antes de deixar cair sua pasta com os contos, poemas e crônicas. Com um sorriso amarelo, envergonhado, abaixou-se, pegou suas coisas e desceu do ônibus em frente ao grande hotel.

Sabia que não estava vestida de acordo. Sabia que olhariam torto para ela, como se ela não pertencesse àquele lugar. E sabia também que tudo mudaria quando exigisse a suíte da família e provasse ser quem era. “Primogênita da grande família Oliveira e Andrada”, pensou com nojo. Sentia-se constante nauseada. Tinha a impressão que iria vomitar ou chorar, dava no mesmo, toda a vez que era obrigada a pronunciar em alto e bom som seu nome. Isabel Cora O’Bard de Oliveira e Andrada. Ou como seu pai a apresentava, Isabel de Oliveira e Andrada. Isabel. Odiava seu nome. “O nome de uma princesa”, dizia sua avó quando ela era pequena. “Princesas vivem em castelos”, ela respondia “e são amadas e queridas” acrescentava para si. Entrou no hotel.

Dirigiu-se para a recepção. E antes que fosse enxotada dali pelos seguranças, colocou sobre o balcão sua identidade e pediu um quarto. A recepcionista pegou a identidade com certo asco, mas mudou totalmente sua expressão quando viu ali o maldito nome estampado. Passou a ela um cartão e a identidade. Isabel devolveu-lhe um sorriso que estava entre o nojo e a ironia. Pegou o que lhe era devido, virou as costas e saiu dali o mais rápido que pode.

Àquela hora os hospedes estavam jantando ou então em alguma festa importante e imprescindível, por um motivo que apenas eles sabiam e que ela não se preocupava em saber. Pegou o elevador sozinha, e subiu para o décimo primeiro andar. Poderia seguir até mesmo vendada para o quarto que a família costumava ficar. Tantas vezes seguira por aquele caminho. Quarto seiscentos e sete. Entrou jogou a mochila no sofá, atirou a pasta sobre uma cômoda e jogou-se na cama grande e confortável. Pegou o celular novamente, e começou a digitar uma mensagem. “Estou no quarto 607. Não venha hoje.”. Enviou-a, desligou o celular e atirou-o junto da mochila, sem realmente importar-se. Empurrou os tênis com os pés, apagou as luzes e perdeu-se no meio da gigante quantidade de cobertores e almofadas. Quando teve certeza de estar sozinha com as sombras do quarto, chorou até cansar-se. Com os olhos inchados, doloridos, a garganta embolada, a face encharcada e o corpo exaurido. Completamente cansada e exausta, ela caiu em um sono sem sonhos.

(contiua)

Por um amigo querido

Algumas vezes certas pessoas cruzam nossos caminhos, e sem querer essas pessoas acabam sendo espelhos de nós. Eu sem querer acabei topando com esse espelho, tão negro quanto eu. Sinto-me orgulhosa e feliz de conhece-lo, e agora ainda mais de poder dividir meu 'teto' com ele.
Porque as vezes amizade tratá-se sobre isso, sobre dividir coisas muito particulares com pessoas muito peculiares.
Dificil é só uma palavras que usamos para complementar um conto, um poema, não é realmente uma realidade, porque mesmo um teto distante e de dificil transposição, pode ser alcançado com as palavras certas.


Jogado no sofá, meus olhos o encaram, ele ri-me irônico, cruel, intransponível.


Frio. Brigado com minha feição, corrói-me.

Brinca comigo.

Inutilmente tento alcançá-lo.

Apenas evidencia quão alto é, quão longe estou.

Escuro. Emplaca-se como barreira invisível.

Visível. Cabalmente visível. Indubitavelmente visível.

Irriquieta-me. Algo além merece ser visto.

Recua-me. Faz perder-me a ideia capital de um sentido, esboça minha falta de capacidade.

Objetivado a concretizar meu abstrato, distancia, imóvel, meu pensamento, embora fugido, oportuno.

A massa, o concreto, fortificado. Concreto.

Pensamento concretado. A angústia de ater-se abstrato.

Iluminado. Disposto a não perder, não fugir, manter-se firme.

Sentimento algum. Ódio, talvez, fluindo, alimentado.

Razão. Perdida há muito tempo, ignora-me, adora-o.

Se pudesse, sairia, mas mantenho-me vivo por obrigação. Ele me enoja.

Minha barreira psicológica, minuciosamente criada por diversão, acanha-me, perturba-me.

Desvendo passo a passo meu inimigo.

O chiar do telefone soa a meu lado.

Intransigente, sorri-me uma ultima vez, fechado, amarelo.

Acordo de minha perturbação.

Irrelevante.

Atendo.

Chiado.

Ele.

 
Por renan,
meu querido amigo espelho.

Solidão

Estou sozinha. Não há nada a fazer sobre isso, a cada passo que dou mais sozinha eu fico. Eu não pertenço mais a lugar nenhum, não tenho um lar, não me sinto em casa, não há nada para retornar, não há onde retornar. Ao meu redor, a solidão física permeia o espaço embora eu não vá a lugar algum sem ninguém, estou sempre só.

Olho a minha volta, é frustrante perceber que estou só, enquanto todos estão rodeados e juntos. A solidão aumenta. Descobrir-se nada para o mundo é algo que causa ânsia. Estou constantemente nauseada e sinto que posso vomitar a todo instante, ou chorar, dá no mesmo. Noção de qualquer coisa que seja me escapa pelos dedos. Desaprendi a viver com pessoas porque estou vazia delas. Vejo-as o tempo todo, converso, ouço, toco, mas elas nada significam, são como luz ou vento no espaço, devem estar ali para compor o ambiente, nada mais. Qual a utilidade de qualquer uma delas em minha vida?
A indiferença preenche-me quando as vejo, ouço e sinto. Nada me causam, nada me acrescentam, continuo inutilmente igual a antes.
Sinto-me cada vez mais irrelevante ao mundo, cada vez mais inútil e desproposital. Penso e falo, olho e sinto, cheiro e ouço, sem que significado algum se faça para mim. O mundo gira, o mundo para, o mundo volta. As pessoas continuam as mesmas de sempre. Todas são as mesmas horríveis e mesquinhas de antes. Todas ainda sorriem quando me vêem passar. No fundo sei que é enrolação, posso sentir o ódio dirigido a mim, no ambiente, no meio das frases, entre os olhares. Lufadas de um ódio primitivo rondam o ambiente a minha procura. Não posso, contudo gritar-lhes para que parem, eles não o dizem.
Continuo caminhando, a cada passo mais sozinha, mais distante. É um caminho sem volta, de uma passagem só de ida, Passargada me espera ao final da linha de metro, de lá pego um trem direto até o castelo do rei, meu amigo.
A sensação de náusea não me deixa dormir, descansar, sonhar. O pensamento latejante grita-me que não presto, é insistente o bastante para manter-me sempre atenta e alerta. O cansaço vem, os dias sucedem-se, e no final nada mudou, nada nunca muda.
As pessoas ainda lutam para serem as melhores, sem se importar realmente com as outras. Todos sempre têm dentro de si um egoísmo negro e um narcisismo vermelho, que mascaram com sorrisos brancos em um mundo cor-de-rosa.
O mundo fede, as pessoas fedem, a tudo. Desde inveja inescrupulosa, ao exarcebado consumismo e o capitalismo, que não passam de desculpas para que as pessoas possam tomar o querem sem se sentirem culpadas.
Tudo ruí a nossa volta, e ninguém vê ou se importa, porque todos estão conseguindo o que querem, e os que não conseguem, mal tem força para erguer-se e dizer, e mesmo que dissessem, ninguém os entenderia ou pararia para ouvir.
O mundo é uma merda. E as pessoas são uma merda. A vida é uma merda. E ainda sim estou aqui viva, agarrada com todas as forças a uma vida que não me faz bem, a uma vida que apenas me mostra desespero e impotência.
Estou viva dentro de um mundo que temo em deixar. Temo o dia que não abrir os olhos para ver o céu cinza e as nuvens negras, o sol escaldante e as pessoas nojentas e ignorantes. Temo o dia que não poderei correr por dentre os carros fedorentos e barulhentos, entrar em uma sala mal conservada e olhar para as caras feias de pessoas desconhecidas.
Sou uma louca sem noção. Quando olho para mim, vejo que nada tenho, nada tive. A solidão que me acompanha, irá deixar-me, quem sabe, no dia de minha morte. Nasci sozinha em uma quarta-feira fria. Vivi sozinha em um mundo gelado. Escondi-me no escuro, e olhei a viva através da fechadura de uma janela.
Restam-me as letras deixadas, as entrelinhas lidas, o entendimentos dos livros, pois sou tão grande quanto as páginas dos livros que vivo, e tão real quanto as letras que escrevo.
Sou uma louca por viver.
Sou uma louca por continuar vivendo.
Sou uma louca por querer viver.
Sou uma louca.
Vivo.
Vivendo.
Só.

Meu eu

Se perguntarem por ae, diga apenas que sou uma garota que vive perdida nos trilhos, gosta de cores e notas, leva na mochila apenas um livro e uma música, deixou de ser a muito tempo alguem e busca saber quem.
Se perguntarem por ae, diga apenas que vivo, e que me viu passar, que não tenho hora pra voltar, só algo para acreditar e umas histórias para contar.
Se perguntarem por ae, diga apenas que faço jornalismo, que sonho em ver o mundo e aprendo a viver nas arestas dos amigos que levo comigo, num beco com saída pra noite.
Se perguntarem por ae, não grite os segredos, sussurre baixinho que me teve por perto, e que me viu partir sem saber pra onde, guiada apenas pela estrela polar.
Se perguntarem por ae, não tenho idade certa, acordo como uma velha, passo a tarde criança, pra crescer no almoço, viver a tarde adolescente e ir dormir alguma hora proxima da juventude, pra dançar a noite inteira, e passar todo o tempo sonhando acordada, vivendo fantasias desperta e realidades acordadas presenciadas em sonhos.
Se perguntarem por ae, não tenho ninguem para amar, nem um coração para dividir, apenas tudo o que levo comigo, e sera seu enquanto o tempo durar, sem saber se vou partir ao acordar ou ao morrer.
Se perguntarem por ae, não sigo um caminho certo, não sei da onde vim, e não faço ideia de onde chegar, pego carona na rabeira de uma moto, sigo o itinerante de um circo, acompanhando as estradas das nuvens.
Se perguntarem por ae, diga ao fim que nunca me viu, que sou apenas um sonho, uma nuvem, diga que sou um sorriso perdido nos labios de uma criança, a noite aproveitada ao lado de um alguem, um prazer, um poema, que começa intensamente e termina simplismente com : She lived and then died.

Lobos

Hoje senti medo!
Não era um medo qualquer, desses que temos ao ficar sozinhos no escuro. O medo que senti cresceu por cima de mim, agigantou-se tornou-se maior que eu, tornou-se eu.
Parei olhando-o nos olhos. Não pude continuar, encolhi-me num canto de mim. Paralizada de medo e temor. Meus dedos tremiam, meus olhos lacrimejaram-se. Senti meu coração falhar, e meu cerebro adormecer. E eu só queria chorar e dormir até tudo passar, mas não consegui. Não consegui fazer nada, além de ficar ali e ver, e de presenciar cada segundo.
Cada vez mais longe, senti-o partir-se de mim. Era fisico. Um membro essencial perdido; para sempre?
Não sabia. E o medo corroia-me. Poucas vezes senti um tal medo tão fisico e denso. Poucas vezes tive algo tão grande e importante a perder. No instante que notei, conscientizei-me de mim. De minhas extenções e intenções.
Sempre me achei alguem fora do padrão. Só então vi quão padronizada sou. Apenas uma garota. Só uma humana. Falha. Imperfeita. Desejosa. Ardente. Fria. Pensante. Passional. Emocional. Lacrimosa.
Sem nem mesmo perceber, deixei a pressão escorrer. Lagrimas, limpas e pesadas, eram gotas de medo, apenas uns pedaços de minha aflição.
Acanhada a um canto, sozinha. Apertada em medo e dor. Esquecida no clarão cego do sol. Olhei para cima. O céu azul afrontava-me. Limpo. Alegre. Ameno. Odiei-o. Como podia?
Fiz então medo em raiva e transformei dor em irritação. Explodi. Levantei-me unica, segui em frente comou m pequeno furacão; sou uma confusão ambulante. Ladeada por elas, sorri-lhe. Ele por sua vez mal notou-me, eu por minha vez ignorei-o então.
A dor e o medo escondidos por trás de um sorriso. Sabia que não livraria-me do medo, ou da dor. Tinha consciencia de que não era forte o bastante para lutar contra o sentimento quente que crescia em meu peito. Mas alivia-me saber. Sou forte o bastante para esconder dos olhos do mundo.

Primeiro de abril

Olhei para o céu, e a noite me era igual aos olhos, mais uma noite como todas as outras. Entrei no carro e liguei o som, uma música qualquer em uma rádio qualquer. Encostada a janela olhava os carros passando rápidos, as luzes movendo-se velozes. Alheia ao mundo concentrava-me em apenas ver, ver as árvores ficarem para trás, ver os fios passarem rápidos, ver a noite.


O telefone tocou uma, duas vezes, até que o atendesse, a voz do outro lado, fria, distante, uma sineta de alerta despertou em minha cabeça. Ansiosa olhei para minha mãe que dirigia. Tensa, entreguei-lhe o aparelho. Estava paralisada de medo, anseio, terror. Embora negasse veementemente eu sabia o que havia acontecido. Negava na esperança de acalentar meu coração aflito. Mas eu sabia, no fundo, era apenas uma mentira, mais uma que eu acrescentava a centenas de outras que contava para mim mesma constantemente.

Suspirei e olhei para ela. Pálida, gelada, o choque tirou-lhe tudo. As lagrimas escorriam silenciosas pelos olhos gritantes. Em um entendimento mutuo, acompanhei-lhe as lagrimas, e acrescentei-lhe os apelos. Meu mundo tornou-se negro. Cega pela dor que não sabia possível. Senti meu coração paralisar de medo e dor. Ouvia minha própria voz clamando, sem ter a noção das palavras que dizia. Tudo era apenas um borrão.

A mais nítida imagem a minha frente. Um rosto flutuante na noite. Um rosto calmo e paciente, tão bondoso. Apenas ele, que me dava tanto amor, e força. Como o mundo poderia continuar sem ele? Naquele momento odiei toda a felicidade.

As mãos tremulas dela, seguraram as minhas frias. Por aquele momento, a razão voltou-me aos olhos. Pedi força para continuar. Abateu-se então o pesado cansaço do sofrimento, e senti-me carregando o mundo.

Ao olhar para o lado, encarei os olhos mudos do mais puro sofrimento e percebi então que era ela quem precisava de mim. De filha virei mãe de minha mãe. E as lagrimas secaram. E o sofrimento guardou-se. E as angustias esconderam-se. E restou-me a plácida calma, serena e tranquila.

O carro parou, saltei. Abracei-a fortemente em meu peito. Como se pudesse protegê-la do mundo e de si mesma. Como se sobre minha proteção nenhum mal e sofrimento pudesse atingi-la. Entramos juntas em casa, de mãos dadas. Subimos juntas, e deixamo-nos a sós. A água do chuveiro batia forte em meu rosto, sem contudo, que eu pudesse senti-lo. O vapor enchia-me os pulmões, sem que eu o sentisse. Apenas borrões e lembranças passavam por mim. Sozinha em meu quarto, agarrada ao velho urso de pelúcia chorei a falta de meu heroi. Tão grande, majestoso, e agora fisicamente não mais que nada. Sabia em meu intimo que ele não me deixara. Prometerá-me que ficaria sempre comigo. A certeza de que ele cumpriria sua promessa era-me cega. Ouvi os passos perdidos de minha mãe. Levantei e arrumei a mala. Arrastei-a pelo casa até o sofá no qual minha mãe mantinha-se estática, encolhida a um canto lendo. A dor de vê-la corroeu-me por dentro. Meu instinto de mulher, de mãe, aflorou-se, sentei-me ao lado dela e abracei-a. Ela aconchegou-se a mim, satisfeita pelo carinho. Passou a ler uma oração,e enquanto lia, senti-a se acalmar. Ficamos em silencio. Esperando apenas. Juntas.

O barulho da porta abrindo preencheu a casa. Os sons calmos de meu pai e irmão, acalmaram-nos. Eles chegaram, arrumaram-se e nos partimos. No carro, o silencio dominava-nos. Cansados, exauridos pela dor e sofrimento. O radio cantava sozinho, sons que não conseguia entender. O sono foi mais forte, e os pensamentos tenebrosos passaram, e o sofrimento acalmou-se, e tudo transformou-se em sonho. Dormi.

Acordei já a porta do prédio de minha avó. Entramos no hall, o porteiro quieto, um ar mórbido acompanhava-nos. Um estranho cortejo fúnebre passeava em minha família aquela noite. Estranhamente, éramos sempre alegres e festivos demais, não naquela noite, não.

Entramos pela porta sempre aberta da cozinha. Costume de família, ninguém usa a porta da frente, embora não tivéssemos seguido a tradição seguinte, gritar chamando minha nona e nono. Entramos quietos. Sussurros de conversas plainavam pela sala iluminada. Seguimos rápidos para minha avó, preocupados e ansiosos. Tão pequena e frágil, tão indefesa, e mesmo assim tão indefensível. Que poderíamos dizer-lhe que já não soubesse? Como acalmar e acalentá-la? Olhei-a tristemente, abracei-a apertado, e deixei-a aos cuidados de minha mãe e tia.

Do outro lado, meu primo e madrinha estavam sentados, olhando todos atentos. Sentei-me com eles, e aos poucos um sentimento de conforto foi preenchendo-me.

Sempre os mesmos gostos, a mesma fome por saber, sempre a conversa calma e deliciosa. Música, filmes, livros, histórias. O jeito boêmio de ser, outra tradição de família. Sorri com o pensamento, um sorriso fraco, mas ainda um sorriso. Gostamos de tradições, pensei. Vovô estabeleceu varias delas. Sorri abertamente com a lembrança.

Peguei o pote de balas e coloquei-o próximo de nós. E entre conversas e balas e papeizinhos amontoados e reclamações de nossas mães as horas passaram.

A temida hora foi se aproximando. Celulares tocando, exigências sendo feitas, e a tensão voltou. “O corpo já chegou”, disse uma de minhas tias. Odiei-a na hora, quis gritar com toda a força, “É MEU AVÔ, NÃO O CORPO”, mas bastei-me de secar as lagrimas que escorriam insistentes. Refugiamo-nos, eu e meu primo na cozinha. A garrafa de café muito bem instalada entre nós. E aos poucos a conversa voltou. E a aparente calma tomou-me novamente. “Depois de fumar a melhor coisa é um cigarrinho”, comentou levianamente meu primo. Concordei com a cabeça. Queria muito um cigarro. Sentir a nicotina entrando, e acalmando-me. A vontade e sede por um tubinho branco com tabaco cresceu-me. Mas antes que pudesse dizer algo, minha tia entrou na cozinha e anunciou: “Está na hora, vamos temos que levar sua avó.”.

Apática, levantei-me segurando o braço de meu pai. Descemos o elevador, entramos no carro e seguimos para o velório. Subi a rampa firmemente segura pelos braços de meu pai. Simplesmente não conseguia mais barrar a dor que havia acumulado-se. Meu coração batia fraco, dolorido, sentia cada pulsar. Cega pelas lagrimas. Surda pela dor. Muda de sofrimento. Guiada pelo abraço protetor de meu pai, segui em passos trêmulos. Mal conseguia manter-me de pé. E aos poucos aproximei-me do caixão. Uma bola de dor enroscara-se em minha garganta. Meus pensamentos confusos iam e vinham, passado e presente, sem no entanto, apegar-se a nada. O mundo era só um borrão novamente. As mãos fracas de dor agarraram-se calejadas as roupas de meu pai. Enterrei a cabeça em seu peito e chorei. Chorei toda minha dor. Chorei todo o meu sofrimento. Chorei. E deixei chorar. E a cada lagrima, minha dor diminuía, e meu sofrimento acalentava-se. E quando as lagrimas esgotaram-se, levantei os olhos brilhantes, ainda sofridos, da camisa encharcada de meu pai. Encontrei seus olhos piedosos e compreensivos. Ele passou a mão por meus cabelos e me confortou em seu abraço. Chorei mais. Chorei até que apenas restasse a saudade. Chorei até que a força me voltasse. Chorei até que a razão se estabelece-se. E então, ao final de todas as lagrimas. Virei meu rosto e olhei-o.

Plácido e calmo, como há muito tempo eu não o via. Os olhos fechados. As mãos cruzadas no peito. Vestido com terno e gravata. Lembrei de como ele costumava ser bonito e impotente. Era uma figura e tanto. Tão engraçado, sempre com uma piada ou uma canção a fugir-lhe dos lábios. Conhecia todas, é claro, mas ria incansavelmente a cada nova, e repetitiva, rodada. E lembrei de mim, pequena, com ele gigante ao meu lado, ensinando a montar e selar um cavalo com o triplo de meu tamanho. E das balas sempre presentes em seus bolsos. E do riso doce. E das manias irreverentes. E dos carinhos cansados. E da fala mansa. E da musica do velho acordeom italiano. E das cantigas. E das loucuras. E de me por no colo para guiar. E de me ensinar a levar o gado para a mangueira. E de me ensinar a subir nas árvores. E a pegar galinhas. E me contar histórias. E me dar coragem para não ter medo do escuro. E me por para dormir. E abraçar. E me beijar. E conversar comigo. E brigar comigo. E discutir comigo. E estar comigo. E não consegui segurar o riso. Pois estar com ele e não sentir-se viva era tão impossível quanto não fechar os olhos para o sol de meio dia.

Contra todas as expectativas e suspeitas, ao fitar aquele rosto tão conhecido, as lagrimas escorreram acompanhadas de um cortejo sorridente e alegre. Ri de suas maluquices, ri de sua falta de juízo, ri de sua alegria em estar vivo, ri de suas histórias, ri de suas piadas, ri.

Percebi então sua presença ao meu lado, cuidando de todos nós. A calma invadiu-me como nunca antes naquela noite. Uma paz que eu não conhecia ha muito tempo. Minhas mãos duras de tanto segurar fortemente meu pai foram soltando-se. Fui desfazendo o abraço apertado dele e apertando-me a mim. Guardando-me para mim.

Com passos lentos aproximei-me dele sem tocá-lo, não conseguiria, tocá-lo era a confirmação física presente de sua ida, e ainda não estava preparada para encarar aquilo. Calma sorri-lhe e sussurrei-lhe adeus. Meu primo a meu lado abraçou-me, e eu abracei-o, ficamos os dois abraçados, apenas olhando-o, e nos lembrando.

Levantei os olhos e vi minha pequena avó. Sozinha, alheia ao mundo. Não pude conter-me, soltei-me de meu primo e com passos rápidos, quase correndo ajoelhei-me perante minha avó. Segurei-lhe bem firme as mãos, e fiquei ao seu lado. Apenas fiquei. Falávamos as vezes. Palavras soltas. Comentários vazios. Permaneci ajoelhada até que meus joelhos doessem, e continuei ajoelhada até que a dor passasse. Não sei quantas horas fiquei ao lado dela, sei apenas que não a deixei por nada. “Estou com sede”, murmurou-me depois de muito tempo. Os olhos bagos, vagos, sem vida. Apiedei-me dela como nunca. “Ela perdeu o amor da vida dela”, cafona, brega e clichê, mas a verdade mais pura que pensei em toda aquela noite. Levantei-me precariamente, com os joelhos doloridos. Andei apressada, com receio de deixá-la muito tempo só. Mas não consegui ir tão depressa quanto gostaria. Tios, tias, primos, primas, parentes. Perguntavam como ela estava. Ansiosos e preocupados com nossa pequena matriarca. Respondia-lhes apressada e seguia em frente. Voltei com a água.

“Eu estou sozinha”, disse para ninguém em especial.



“É claro que não”, devolvi-lhe, “Olhe quantos filhos, quantos netos, irmãos, não a deixaremos sozinha, nunca”

“Eu não tenho mais o Lando, eu estou sozinha”, insistiu quase como se não houvesse me ouvido

Naquele instante percebi o quão sem chão ela estava. Sua vida toda praticamente fora dedicada a ser a mulher do homem deitado ao lado. Eram casados há 56 anos. Mais que o triplo de minha vida. Eu a amo tanto, e o fato de não poder oferecer-lhe nenhum conforto machucou-me profundamente. Levantei-me novamente. Beijei-lhe as faces e deixei-a aos cuidados de minha mãe. Segui para junto de meus primos, e pela primeira vez na noite olhei as horas. 1:00 piscava no visor de meu celular quase sem bateria, que com um bip agudo desligou-se. A hora tardia, ou o fato de ter sentado e relaxado, eu não sei, mas apenas meu estomago resolveu pronunciar-se. Um de meus primos, ofereceu-se para levar a mim e meu irmão para comer. Chegamos, comemos, partimos.

Subi novamente a rampa. Instalei-me próxima a minha avó. Eram quase duas da manha. Minha mãe e minha tia persuadiam minha avó a voltar para o apartamento, descansar e dormir. Levaram-na dali. O lugar estranhamente mais silencioso, mais pacifico, mas ainda sim, mórbido e pesado. “Será uma longa noite”, pensei. Pela primeira vez deixei que meus pensamentos vagassem soltos. Meus olhos passaram pelas paredes brancas sem focar-se a nada. Nem mesmo uma idéia rodeava-me a mente. Desci a rampa e instalei-me no abraço reconfortante de meu pai. Era uma roda de homens, meu padrinho, meus tios, meu pai. Conversavam sobre alguma coisa que não dei atenção, assim como eu e meu primo tentávamos fazer antes, eles discutiam apenas para se distraírem.

Sentia-me confortável e acolhida nos braços de meu pai. Deixe-me levar. O cansaço e o sono começando a ganhar. Minha madrinha aproximou-se bondosamente, e abraçou-me. “Venha, vamos dormir em casa”. Deixe-me levar por ela, uma mãe carinhosa que entendia minha dor. Conversamos. Sempre me dera bem com ela. Uma professora de português. Chegamos na casa conhecida. Sentei-me com ela no sofá e conversamos. Meu primo chegou com a namorada. Lembramos dos antigos tempos. Não vi o tempo passar. Não vi nada. Apenas deixei-me levar pelo clima ameno e aconchegante. Como sentia falta daquilo. De meus primos. De minha família. É tão bom estar com eles, tão natural.

“São 5:30 da manhã”, anunciou meu primo. Minha madrinha levantou-se esbaforida. Entrando casa a dentro, pegar fronhas, arrumar lençóis. Timidamente entrei no quarto dela e de meu tio. Ela bondosamente estendeu-me um pijama, e me mostrou onde dormir. O lado esquerdo da cama. Coloquei o pijama e deitei-me. O calor, o cansaço, o sono, a dor, o escuro, o conforto, até mesmo a musica baixa, colaborou para que eu dormisse. Cai em sono profundo, deixando-me arrastar para as profundezas de minha mente sem sonhos. E eu pude descansar em paz. E tudo não passava de um longínquo primeiro de abril. E o borrão do mundo tornou-se negro. E as estrelas apagaram-se. E eu fui para um lugar onde toda realidade não era nada mais que um lampejo.

Importancia

A vida é uma trama de retalhos, cada pedacinho é algo que te tocou, alguem que te amou. Costurados todos juntos, com loucura, sanidade, alegria e lagrimas, as partes formam algo tão grande que não posso ver. Além de meus olhos, no centro de tudo, no horizonte do mundo, o conjuto se torna você. Nunca estamos sós, por não sermos um. Somos todos e tudo, e assim somos apenas nós. Um pouquinho de cada um, uma partezinha de cada coisa. Unidas por um não sei o que, que torna-te você, que torna-me eu, que torna a união de nois dois.

Como as areias da prais levadas pelo vento. Misturamo-nos todo o tempo de modos e jeito novos e impossiveis. Traçados de tipos unicos e inigualaveis. A beleza está na confusão formada. Risos e gritos. A irreverente maneira de viver. O incontrolavel jeito de ser. O delioso modo de viver. Eles me formam, e eu os formo. Não poderia ser eu sem eles, como eles são poderiam ser sem mim.

Mas mesmo assim, ao final da noite, vendo o sol levantar-se uma vez mais. Toda a trama desaparece sob seus olhos. E no fundo da alma, só importa o resultado. Em um dia de verão passado na cama ao lado, não vejo ou sinto alem da pele, e a trama do mundo some sob meus olhos. E ao final do dia, mudados estamos.

Luto


Para que dizer alguma coisa, enquanto meu coração permanece mudo?

Parece mentira, mas aconteceu de verdade. Um segundo ele estava aqui, e no outro não estava mais. E o grande heroi foi-se para sempre. Sinto verdadeiramente que ele ainda está ao meu lado. Mas é só, eu sinto, mas não vejo ou toco, não há o que ver ou tocar.
Ele era o maior. O meu segundo pai. E dentro de meu coração continua sendo. Mas eu estou em choque, de corpo e alma. Antes, via tudo de cima, como se não acontecesse comigo. Agora, não sei direito o que aconteceu. Não tenho certeza de onde ou quando estou.

01/04/2010 - Orlando Francischinelli

Descance em paz vovozinho. Nos te amamos muito.